|

|
|
RESUMO DO CONTO - UMA SENHORA, DE MACHADO DE ASSIS.
No conto Uma Senhora,
o autor, Nachado de Assis, conta as dificuldades de uma jovem
mulher, dona Camila, de aceitar a velhice, mostrando as artimanhas
que faz, de maneira inconsciente, para evitar que a filha case,
vendo só defeitos nos pretendentes. Até que, por fim, sem outro
remédio, verga-se às imposições da vida, assumindo-se como avó
enlevada.
Vale notar que D. Camila procurou atrasar ao máximo o amadurecimento
da filha, tratando-a como criança e vestindo-a como menina até o
momento em que não lhe foi mais possível.
No conto Uma Senhora, Machado de Assis espicaça os românticos
e seus clichês quando descreve dona Camila: (...) os braços, que
eu não digo que eram os da Vênus de Milo, para evitar uma
vulgaridade.
Machado de Assis, neste conto põe de manifesto os tormentos de
envelhecer para a alma de uma mulher vaidosa, D. Camila.
A protagonista, D. Camila, é casada e tem uma filha chamada
Ernestina, esta apesar de já crescida tem a infância prolongada
devido a vaidade de sua mãe que tinha verdadeiro pavor de
envelhecer.Como não se pode deter o tempo, o que sucede é o curso
natural da vida, onde Ernestina começa a arrumar pretendentes e a
mãe muito "zelosa" põe defeito, em muitos, com a desculpa de querer
um casamento como o dela. Certo dia D. Camila descobre o primeiro
fio de cabelo branco e muito frustrada o arranca; assim outros fios
brancos surgem sendo que o terceiro coincide com mais um pretendente
da filha.
Depois de muito relutar acaba aceitando o genro, embora a contra
gosto. Ernestina então casa-se, e com isso vem o primeiro neto pouco
tempo depois; mãe antes preocupada com a filha, agora ocupa-se do
bebê. Já na condição de avó começa a fazer passeios, acompanhada de
uma preta, onde leva o pequeno e demonstra excessivos cuidados
deixando transparecer que seria a mãe e não a avó do mesmo.
O conto Uma senhora foi publicado no livro
Histórias sem Data em 1884, é narrado em 3ª pessoa, com um
narrador onisciente, e tem o tempo cronológico representado através
da existência humana considerada no curso dos anos. Já em relação ao
espaço este aparece de forma sutil, e embora o contista não lhe de
muita importância pôde se perceber que a personagem vive em contexto
social onde participava de festas e também as dava. O ambiente
doméstico, embora tradicional é regado por paixão, inveja e temores.
O titulo é um problema lingüístico na narrativa, pois traz uma
possível indagação de qual "senhora" o narrador estaria falando, já
que, este substantivo sugere uma mulher de idade mais avançada e
madura; e embora a mãe tivesse mais idade, a filha, todavia, é quem
tinha trejeitos para tal. Machado, com muita delicadeza, deixa a
dúvida no ar.
A análise dos nomes também é de suam importância, já que, de algum
modo representa as personagens, vejamos em Camila temos : "
...associa a uma jovem e linda [...] indica uma pessoa que é
competente porque executa suas tarefas com amor..." Poderíamos
aqui questionar o nome da personagem, pois sabíamos que ela era
linda e amava sua família, mas ao vermos o nome da filha Ernestina,
que seria a antagonista, temos : " aquele que combate". Através
dessa comparação pode-se perceber que os nomes poderiam estar
trocados, pois a "combatente" seria D. Camila, que além de lutar
contra o tempo, também existe o embate com a juventude da filha, e
mesmo a jovem com toda frescor e beleza dos anos, ainda assim, a
beleza da mãe a superava.
A narrativa que apresenta D. Camila aos 29 anos e a filha Ernestina
aos 15, trata das questões do tempo em vários parágrafos, como no
terceiro onde encontramos: "... trepando no alazão do tempo, foi
alogar-se na casa dos trintas..." . Sempre parecendo mais nova
dos 30 aos 40 anos, D Camila vê-se desesperada aos 42, diante do
cabelo branco que torna-se um vilão na narrativa, já que afirma as
mudanças físicas decorrida com o tempo; por isso, a beleza e
juventude da filha faz surgir, nessa mãe, o sentimento de inveja,
agora de forma assumida.
Machado com toda sua sutileza e ironia critica alguns aspectos
referentes ao universo feminino que vive da opinião de outrem; além
do amor materno em via contrária dos interesses pessoais da mulher.
O desejo não admitido, de não envelhecer, que por meios astuciosos,
levam a personagem a efetuar comportamentos no sentido de sua
satisfação caracteriza o tempo psicológico. A vaidade torna-se uma
paixão escondida ou ainda inconsciente.
Algumas características, muito peculiares, da obra de Machado de
Assis podem ser verificadas no conto como a questão da perfeição,
onde temos a busca, incansável, de D. Camila por beleza, de maneira
que está passa a representá-la; tem-se ainda a transformação do
homem no objeto do homem, pelo fato da mãe manipular e usar a filha
visando seus interesses; e finalmente o bem x mal onde poderá
comentar as teorias de Platão, onde a idéia do belo sempre foi
inseparável da idéia do bem, o que confere um caráter positivo ao
conceito de beleza. Daí a comparação feita a D. Camila a Vênus de
Milo, pois a estátua procura traduzir esse conceito e trazer a noção
de imortalidade, também à ambição de nossa protagonista. Já o mal
aqui seria o implacável tempo ligado à idéia do envelhecimento, que
para D. Camila era a perturbação.
A vaidade transcende o tempo
As madonas do renascimento, ou a própria Vênus de Milo citada no
conto que tem os braços comparados aos da protagonista, é um exemplo
de beleza feminina. A Vênus representa a deusa do amor e da beleza
física, Afrodite, é uma escultura em mármore curiosamente teve os
braços perdidos, e nunca encontrados, hoje podemos encontrá-la no
Museu do Louvre na França, sem os braços. Na mitologia temos várias
representantes da juventude e da beleza feminina
A própria deusa Hebe citada no conto também tem muito em comum com
D. Camila. A Deusa Hebe filha de Hera e Zeus representa a juventude,
deusa das noivas jovens que foi oferecida pela sua mãe a Hércules em
casamento depois de este ter conseguido ultrapassar todos os
obstáculos que Hera pusera no caminho para ele crescer. Assim como a
Hebe, D. Camila cuidava de sua filha zelosamente. D Camila tenta
manipular as pessoas em função de sua idade. No ponto de impedir sua
própria filha de seguir o seu caminho.
|
CONTO - UMA SENHORA, DE MACHADO
DE ASSIS. |
|
Nunca encontro esta senhora que me
não lembre a profecia de uma lagartixa ao poeta Heine, subindo
os Apeninos: "Dia virá em que as pedras serão plantas, as
plantas animais, os animais homens e os homens deuses". E dá-me
vontade de dizer-lhe: — A senhora, D. Camila, amou tanto a
mocidade e a beleza, que atrasou o seu relógio, a fim de ver se
podia fixar esses dois minutos de cristal. Não se desconsole, D.
Camila. No dia da lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da
juventude; a senhora nos dará a beber o néctar da perenidade com
as suas mãos eternamente moças.
A primeira vez que a vi, tinha ela trinta e seis anos, posto só
parecesse trinta e dois, e não passasse da casa dos vinte e
nove. Casa é um modo de dizer. Não há castelo mais vasto do que
a vivenda destes bons amigos, nem tratamento mais obsequioso do
que o que eles sabem dar às suas hóspedes. Cada vez que D.
Camila queria ir-se embora, eles pediam-lhe muito que ficasse, e
ela ficava. Vinham então novos folguedos, cavalhadas, música,
dança, uma sucessão de coisas belas, inventadas com o único fim
de impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.
— Mamãe, mamãe, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, não
podemos ficar aqui toda a vida.
D. Camila olhava para ela mortificada, depois sorria, dava-lhe
um beijo e mandava-a brincar com as outras crianças. Que outras
crianças? Ernestina estava então entre catorze e quinze anos,
era muito espigada, muito quieta, com uns modos naturais de
senhora. Provavelmente não se divertiria com as meninas de oito
e nove anos; não importa, uma vez que deixasse a mãe tranqüila,
podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! há um limite
para tudo, mesmo para os vinte e nove anos. D. Camila resolveu,
enfim, despedir-se desses dignos anfitriões, e fê-lo ralada de
saudades. Eles ainda instaram por uns cinco ou seis meses de
quebra; a bela dama respondeu-lhes que era impossível e,
trepando no alazão do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.
Ela era, porém, daquela casta de mulheres que riem do sol e dos
almanaques. Cor de leite, fresca, inalterável, deixava às outras
o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. Cabelo negro,
olhos castanhos e cálidos. Tinha as espáduas e o colo feitos de
encomenda para os vestidos decotados, e assim também os braços,
que eu não digo que eram os da Vênus de Milo, para evitar uma
vulgaridade, mas provavelmente não eram outros. D. Camila sabia
disto; sabia que era bonita, não só porque lho dizia o olhar
sorrateiro das outras damas, como por um certo instinto que a
beleza possui, como o talento e o gênio. Resta dizer que era
casada, que o marido era ruivo, e que os dois amavam-se como
noivos; finalmente, que era honesta. Não o era, note-se bem, por
temperamento, mas por princípio, por amor ao marido, e creio que
um pouco por orgulho.
Nenhum defeito, pois, exceto o de retardar os anos; mas é isso
um defeito? Há, não me lembra em que página da Escritura,
naturalmente nos Profetas, uma comparação dos dias com as águas
de um rio que não voltam mais. D. Camila queria fazer uma
represa para seu uso. No tumulto desta marcha contínua entre o
nascimento e a morte, ela apegava-se à ilusão da estabilidade.
Só se lhe podia exigir que não fosse ridícula, e não o era.
Dir-me-á o leitor que a beleza vive de si mesma, e que a
preocupação do calendário mostra que esta senhora vivia
principalmente com os olhos na opinião. É verdade; mas como quer
que vivam as mulheres do nosso tempo?
D. Camila entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar
adiante. Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou
três amigas íntimas, nutridas de aritmética, continuavam a dizer
que ela perdera a conta dos anos. Não advertiam que a natureza
era cúmplice no erro, e que aos quarenta anos (verdadeiros), D.
Camila trazia um ar de trinta e poucos. Restava um recurso:
espiar-lhe o primeiro cabelo branco, um fiozinho de nada, mas
branco. Em vão espiavam; o demônio do cabelo parecia cada vez
mais negro.
Nisto enganavam-se. O fio branco estava ali; era a filha de D.
Camila que entrava nos dezenove anos, e, por mal de pecados,
bonita. D. Camila prolongou, quanto pôde, os vestidos
adolescentes da filha, conservou-a no colégio até tarde, fez
tudo para proclamá-la criança. A natureza, porém, que não é só
imoral, mas também ilógica, enquanto sofreava os anos de uma,
afrouxava a rédea aos da outra, e Ernestina, moça feita, entrou
radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D. Camila adorava
a filha; saboreou-lhe a glória a tragos demorados. No fundo do
copo achou a gota amarga e fez uma careta. Chegou a pensar na
abdicação; mas um grande pródigo de frases feitas disse-lhe que
ela parecia a irmã mais velha da filha, e o projeto desfez-se.
Foi dessa noite em diante que D. Camila entrou a dizer a todos
que casara muito criança.
Um dia, poucos meses depois, apontou no horizonte o primeiro
namorado. D. Camila pensara vagamente nessa calamidade, sem
encará-la, sem aparelhar-se para a defesa. Quando menos
esperava, achou um pretendente à porta. Interrogou a filha;
descobriu-lhe um alvoroço indefinível, a inclinação dos vinte
anos, e ficou prostrada. Casá-la era o menos, mas, se os seres
são como as águas da Escritura, que não voltam mais, é porque
atrás deles vêm outros, como atrás das águas outras águas; e,
para definir essas ondas sucessivas é que os homens inventaram
este nome de netos. D. Camila viu iminente o primeiro neto, e
determinou adiá-lo. Está claro que não formulou a resolução,
como não formulara a idéia do perigo. A alma entende-se a si
mesma; uma sensação vale um raciocínio. As que ela teve foram
rápidas, obscuras, no mais íntimo do seu ser, de onde não as
extraiu para não ser obrigada a encará-las.
— Mas que é que você acha de mau no Ribeiro? perguntou-lhe o
marido, uma noite, à janela.
D. Camila levantou os ombros.
— Acho-lhe o nariz torto, disse.
— Mau! Você está nervosa; falemos de outra coisa, respondeu o
marido. E, depois de olhar uns dois minutos para a rua,
cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro
aceitável, e se lhe pedisse Ernestina, entendia que deviam
ceder-lhe. Era inteligente e educado. Era também o herdeiro
provável de uma tia de Cantagalo. E depois tinha um coração de
ouro. Contavam-se dele coisas muito bonitas. Na academia, por
exemplo... Dona Camila ouviu o resto, batendo com a ponta do pé
no chão e rufando com os dedos a sonata da impaciência; mas,
quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um despacho do
ministro de Estrangeiros, um lugar para os Estados Unidos, não
pôde ter-se e cortou-lhe a palavra:
— O quê? separar-me de minha filha? Não, senhor.
Em que dose entrara neste grito o amor materno e o sentimento
pessoal, é um problema difícil de resolver, principalmente
agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Suponhamos que
era partes iguais. A verdade é que o marido não soube que
inventar para defender o ministro de Estrangeiros, as
necessidades diplomáticas, a fatalidade do matrimônio, e, não
achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veio a
nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a
pedisse ao pai, porque não queria separar-se da família. Era o
mesmo que dizer: prefiro a família ao senhor. É verdade que
tinha a voz trêmula e sumida, e um ar de profunda consternação;
mas o Ribeiro viu tão-somente a rejeição, e embarcou. Assim
acabou a primeira aventura.
D. Camila padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se
depressa. Não faltam noivos, refletiu ela. Para consolar a
filha, levou-a a passear a toda parte. Eram ambas bonitas, e
Ernestina tinha a frescura dos anos; mas a beleza da mãe era
mais perfeita, e apesar dos anos, superava a da filha. Não vamos
ao ponto de crer que o sentimento da superioridade é que animava
D. Camila a prolongar e repetir os passeios. Não: o amor
materno, só por si, explica tudo. Mas concedamos que animasse um
pouco. Que mal há nisso? Que mal há em que um bravo coronel
defenda nobremente a pátria, e as suas dragonas? Nem por isso
acaba o amor da pátria e o amor das mães.
Meses depois despontou a orelha de um segundo namorado. Desta
vez era um viúvo, advogado, vinte e sete anos. Ernestina não
sentiu por ele a mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a
aceitá-lo. D. Camila farejou depressa a nova candidatura. Não
podia alegar nada contra ele; tinha o nariz reto como a
consciência, e profunda aversão à vida diplomática. Mas haveria
outros defeitos, devia haver outros. D. Camila buscou-os com
alma; indagou de suas relações, hábitos, passado. Conseguiu
achar umas coisinhas miúdas, tão-somente a unha da imperfeição
humana, alternativas de humor, ausência de graças intelectuais,
e, finalmente, um grande excesso de amor-próprio. Foi nesse
ponto que a bela dama o apanhou. Começou a levantar
vagarosamente a muralha do silêncio; lançou primeiro a camada
das pausas, mais ou menos longas, depois as frases curtas,
depois os monossílabos, as distrações, as absorções, os olhares
complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por
trás da ventarola. Ele não entendeu logo; mas, quando reparou
que os enfados da mãe coincidiam com as ausências da filha,
achou que era ali demais e retirou-se. Se fosse homem de luta,
tinha saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camila
deu graças aos deuses.
Houve um trimestre de respiro. Depois apareceram alguns
namoricos de uma noite, insetos efêmeros, que não deixaram
história. D. Camila compreendeu que eles tinham de
multiplicar-se, até vir algum decisivo que a obrigasse a ceder;
mas ao menos, dizia ela a si mesma, queria um genro que
trouxesse à filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E,
uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por
outro motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora só ela
pudesse ouvi-lo. Tu, psicólogo sutil, podes imaginar que ela
queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe
aconteceu em 186...
Era de manhã. D. Camila estava ao espelho, a janela aberta, a
chácara verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ela sentia em
si a harmonia que a ligava às coisas externas. Só a beleza
intelectual é independente e superior. A beleza física é irmã da
paisagem. D. Camila saboreava essa fraternidade íntima, secreta,
um sentimento de identidade, uma recordação da vida anterior no
mesmo útero divino. Nenhuma lembrança desagradável, nenhuma
ocorrência vinha turvar essa expansão misteriosa. Ao contrário,
tudo parecia embebê-la de eternidade, e os quarenta e dois anos
em que ia não lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de
rosa. Olhava para fora, olhava para o espelho. De repente, como
se lhe surdisse uma cobra, recuou aterrada. Tinha visto, sobre a
fonte esquerda, um cabelinho branco. Ainda cuidou que fosse do
marido; mas reconheceu depressa que não, que era dela mesma, um
telegrama da velhice, que aí vinha a marchas forçadas. O
primeiro sentimento foi de prostração. D. Camila sentiu
faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida e acabada no fim de uma
semana.
— Mamãe, mamãe, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui
o camarote que papai mandou.
D. Camila teve um sobressalto de pudor, e instintivamente voltou
para a filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou
tão graciosa e lépida. Fitou-a com saudade. Fitou-a também com
inveja, e, para abafar este sentimento mau, pegou no bilhete de
camarote. Era para aquela mesma noite. Uma idéia expele outra;
D. Camila anteviu-se no meio das luzes e das gentes, e depressa
levantou o coração. Ficando só, tornou a olhar para o espelho, e
corajosamente arrancou o cabelinho branco, e deitou-o à chácara.
Out, damned spot! Out! Mais feliz do que a outra
lady Macbeth, viu assim desaparecer a nódoa no ar, porque
no ânimo dela a velhice era um remorso, e a fealdade um crime.
Sai, maldita mancha! sai!
Mas, se os remorsos voltam, por que não hão de voltar os cabelos
brancos? Um mês depois, D. Camila descobriu outro, insinuado na
bela e farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou
seis semanas depois, outro. Este terceiro coincidiu com um
terceiro candidato à mão da filha, e ambos acharam D. Camila
numa hora de prostração. A beleza, que lhe suprira a mocidade,
parecia-lhe prestes a ir também, como uma pomba sai em busca da
outra. Os dias precipitavam-se. Crianças que ela vira ao colo,
ou de carrinho empuxado pelas amas, dançavam agora nos bailes.
Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao piano.
Algumas destas apresentavam-lhe os seus babies, gorduchos, uma
segunda geração que mamava, à espera de ir bailar também, cantar
ou fumar, apresentar outros babies a outras pessoas, e assim por
diante.
D. Camila apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que
remédio, senão aceitar um genro? Mas, como um velho costume não
se perde de um dia para outro, D. Camila viu paralelamente,
naquela festa do coração, um cenário e grande cenário.
Preparou-se galhardamente, e o efeito correspondeu ao esforço.
Na igreja, no meio de outras damas; na sala, sentada no sofá (o
estofo que forrava este móvel, assim como o papel da parede
foram sempre escuros para fazer sobressair a tez de D. Camila),
vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas
também sem a rigidez matronal, um meio-termo apenas, destinado a
pôr em relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz, enfim,
a recente sogra colheu os melhores sufrágios. Era certo que
ainda lhe pendia dos ombros um retalho de púrpura.
Púrpura supõe dinastia. Dinastia exige netos. Restava que o
Senhor abençoasse a união, e ele abençoou-a, no ano seguinte. D.
Camila acostumara-se à idéia; mas era tão penoso abdicar, que
ela aguardava o neto com amor e repugnância. Esse importuno
embrião, curioso da vida e pretensioso, era necessário na terra?
Evidentemente, não; mas apareceu um dia, com as flores de
setembro. Durante a crise, D. Camila só teve de pensar na filha;
depois da crise, pensou na filha e no neto. Só dias depois é que
pôde pensar em si mesma. Enfim, avó. Não havia duvidar; era avó.
Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabelos, que
eram pretos (salvo meia dúzia de fios escondidos), podiam por si
sós denunciar a realidade; mas a realidade existia; ela era,
enfim, avó.
Quis recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a
filha para casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os
jornais com os seus mil rumores acordavam nela os ecos de outro
tempo. D. Camila rasgou o ato de abdicação e tornou ao tumulto.
Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao colo uma
criança de cinco a seis meses. D. Camila segurava na mão o
chapelinho de sol aberto para cobrir a criança. Encontrei-a oito
dias depois, com a mesma criança, a mesma preta e o mesmo chapéu
de sol. Vinte dias depois, e trinta dias mais tarde, tornei a
vê-la, entrando para o bond, com a preta e a criança. — Você já
deu de mamar? dizia ela à preta. Olhe o sol. Não vá cair. Não
aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com ele. Cubra a
carinha, etc., etc.
Era o neto. Ela, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da
criança, tão a miúdo, tão sem outra senhora, que antes parecia
mãe do que avó; e muita gente pensava que era mãe. Que tal fosse
a intenção de D. Camila não o juro eu ("Não jurarás", Mat. V,
34). Tão-somente digo que nenhuma outra mãe seria mais desvelada
do que D. Camila com o neto; atribuírem-lhe um simples filho era
a coisa mais verossímil do mundo.
FIM |
|
|
|
 |
|
|
 |
|
 |
Joaquim José Maria Machado
de Assis (1839-1908) é unanimemente celebrado como um dos
maiores escritores brasileiros. Nenhum outro reuniu um interesse
tão generalizado em torno de sua vida e obra. Este prestígio,
que outros escritores mais populares não conseguiram alcançar, o
situa à parte, representando por si só um momento incomparável
na sucessão das escolas literárias. Destoante pelo pensamento e
pelo estilo da tradição literária, Machado de Assis marca seu
próprio estilo, fazendo crer ao seu leitor que se colocava face
aos acontecimentos históricos que presenciou como simples
espectador |
|
|
 |
|
 |
O Escritor foi autor de
grandes pbras, principalmente daquela que seria o começo do
Realismo: "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Onde a era
Romântica saía de cena, trocando o imaginário sonhador, pela
vívida e real necessidade de entender que o amor é um fato que
não pode ser descrito na realidade, por assim dizer: Não se vive
de amor. |
|
|
|
|
 |
|
|
|
 |
|
|
|
|
|
 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
 |
|
|
 |

Prof.
Heraldo Meirelles é Coordenador de ONG, web e mover design, Ativista
Social, humanitário
|

|