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Humanismo é o nome
que se dá à produção escrita histórica literária do final da Idade
Média e início da Moderna, ou seja, parte do século XV e início do
XVI, mais precisamente, de 1434 a 1527 . Três atividades mais
destacadas compôs esse período: a produção historiográfica de Fernão
Lopes, a produção poética dos nobres, por isso dita Poesia
Palaciana, e a atividade teatral de Gil Vicente.
É interessante
ressaltarmos que o termo Humanismo é polissêmico, podendo ser
considerado sob vários enfoques, ao mesmo tempo distintos e
interdependentes. Para os limites desta aula, interessa nos o seu
sentido mais estrito ou histórico, entendido enquanto o movimento
literário e cultural de uma época marcada por profundas
transformações na sociedade européia.
O
Humanismo, segunda Escola Literária Medieval, também conhecido como
Pré-Renascimento ou Quatrocentismo, corresponde ao período de
transição
da Idade Média para a Idade Clássica. Tem como marcos iniciais as
nomeações de Fernão Lopes como Guarda-Mor da Torre do Tombo (local
onde se guardavam os documentos oficiais), em 1418 e, como
Cronista-Mor do Reino, em 1434, quando recebeu de D. Duarte, rei de
Portugal, a incumbência de escrever a história dos reis que o
precederam.
Historicamente o
Humanismo foi um movimento intelectual italiano do final do século
XIII que irradiou-se para quase toda a Europa, isto porque, após a
queda de Constantinopla em 1453, muitos intelectuais gregos
(professores, religiosos e artistas) refugiaram-se na Itália e
começaram a difundir uma nova visão de mundo, mais antropocêntrica,
indo de encontro à visão teocêntrica medieval. Entre as principais
idéias humanistas estavam:
• retomada da
cultura antiga, através do estudo e imitação dos poetas e filósofos
greco-latinos;
• revalorização da
filosofia de Platão, especialmente no que diz respeito à distinção
entre o amor espiritual e o carnal – neoplatonismo.
GIL VICENTE
Gil Vicente
(1465? — 1536?)
é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo
português, além de poeta de renome. Há quem o identifique com o
ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o
mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro,
parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e
encenador. É freqüentemente considerado, de uma forma geral, o pai
do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também
escreveu em castelhano - partilhando a paternidade da dramaturgia
espanhola com Juan del Encina.
A obra vicentina é
tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média
para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as
hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis,
para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem
instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da
literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando
elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a
cultura popular portuguesa.
PRANTO DE MARIA
PARDA
O Pranto de Maria
Parda é uma das mais célebres peças de Gil Vicente.
Intencionalmente, o grande dramaturgo, retratou a realidade das
classes pobres de Lisboa, no Século XVI. Contrariando os discursos
que enalteciam e louvavam a beleza e opulência da capital de um
imenso império, Gil Vicente procura desvelar a vivência dos negros e
mestiços chegados e nascidos na metrópole que, em Quinhentos,
calcula-se que perfaziam 10% da população de Lisboa. Muitos eram
alcoólatras, mal-cristianizados, deprimidos pela sub-vida serviçal e
sem perspectivas de futuro a que estavam votados. Vêm-se
carnalizados na figura literária de Maria, perspicaz e corrosiva
observadora da sociedade, amante do vinho carrascão. Podemos
imaginar apenas o impacto que o monólogo terá tido na corte e junto
do monarca; quando se viu defronte de atrevida mestiça, da base da
pirâmide social, para mais mulher, mais a mais sexualmente livre,
assumir, entre canadas (litros) de vinho, uma das mais lúcidas e
desesperançadas críticas à sociedade dos "fumos da Índia”.
Gil Vicente foi
genial e arrojado, mas quinhentos anos depois já o império se foi,
já nada diz. Na linha de exigência a que acostumou o seu público.
Para lá da coisificação compulsiva, uma criatura parda;
simultaneamente pária, perdida e deambulando com desespero na
solidão, procurando uma voz que não responde: - "Não sei que
faça..." – diz. "Quem quer fogo, busque lenha!" – troça de si.
Opressão auto-infligida é um retrato e metáfora da fragilidade
humana.
Maria Parda,
poderosa sedutora cheia de espírito, sorumbática neurastênica, não é
fácil de ser interpretada.
Por que vio as ruas
de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas e o vinho tão caro, e
ela não podia viver sem elle
Eu só quero prantear
Este mal que a
muitos toca;
Que estou já como
minhoca
Que puzerão a
seccar.
Triste
desaventurada,
Que tão alta está a
canada
Pera mi como as
estrellas;
Oh! coitadas das
guelas!
Oh! guelas da
coitada!
Triste desdentada
escura,
Quem me trouxe a
taes mazelas!
Oh! gengivas e
arnellas,
Deitae babas de
seccura;
Carpi-vos, beiços
coitados,
Que já lá vão meus
toucados,
E a cinta e a
fraldilha;
Hontem bebi a
mantilha,
Que me custou dous
cruzados.
Oh! Rua de San Gião,
Assi 'stás da sorte
mesma
Como altares de
quaresma
E as malvas no
verão.
Quem levou teus
trinta ramos
E o meu mana
bebamos,
Isto a cada
bocadinho?
Ó vinho mano, meu
vinho,
Que ma ora te
gastamos.
Ó travessa
zanguizarra
De Mata-porcos
escura,
Como estás de ma
ventura,
Sem ramos de barra a
barra.
Porque tens ha
tantos dias
As tuas pipas
vazias,
Os toneis postos em
pé?
Ou te tornaste Guiné
Ou o barco das
enguias.
Triste quem não cega
em ver
Nas carnicerias
velhas
Muitas sardinhas nas
grelhas;
Mas o demo ha de
beber.
E agora que estão
erguidas
As coitadas
doloridas
Das pipas limpas da
borra,
Achegou-lhe a paz
com porra
De crecerem as
medidas.
Ó Rua da Ferraria,
Onde as portas erão
mayas,
Como estás cheia de
guaias,
Com tanta louça
vazia!
Ja m'a mim aconteceo
Na manhan que Deos
naceo,
Á hora do nacimento,
Beber alli hum de
cento,
Que nunca mais
pareceo.
Rua de
Cata-que-farás,
Que farei e que
farás!
Quando vos vi taes,
chorei,
E tornei-me por
detras.
Que foi do vosso bom
vinho,
E tanto ramo de
pinho,
Laranja, papel e
cana,
Onde bebemos Joanna
E eu cento e hum
cinquinho.
Ó tavernas da
Ribeira,
Não vos verá a vós
ninguém
Mosquitos, o verão
que vem,
Porque sereis
areeira.
Triste, que será de
mi!
Que ma ora vos eu
vi!
Que ma ora me vós
vistes!
Que ma ora me
paristes,
Mãe da filha do
ruim!
Quem vio nunca toda
Alfama
Com quatro ramos
cagados,
Os tornos todos
quebrados!
Ó bicos da minha
mama!
Bem alli ó Sancto
Espírito
Ia eu sempre dar no
fito
N'hum vinho claro
rosete.
Oh! meu bem doce
palhete,
Quem pudera dar hum
grito!
Ó triste Rua dos
Fornos,
Que foi da vossa
verdura!
Agora rua d'amargura
Vos fez a paixão dos
tornos.
Quando eu, rua, per
vós vou,
Todolos traques que
dou
São suspiros de
saudade;
Pera vós ventosidade
Naci toda como
estou.
Fui-me ó Poço do
chão,
Fui-me á praça dos
canos;
Carpi-vos, manas e
manos,
Que a dezaseis o
dão.
Ó velhas
amarguradas,
Que antre três sete
canadas
Sohiamos de beber,
Agora, tristes!
remoer
Sete raivas
apertadas.
Ó rua da Mouraria,
Quem vos fez matar a
sêde
Pela lei de Mafamede
Com a triste d'agua
fria?
Ó bebedores irmãos,
Que nos presta ser
christãos,
Pois nos Deos tirou
o vinho?
Ó anno triste
cainho,
Porque nos fazes
pagãos?
Os braços trago
cansados
De carpir estas
queixadas,
As orelhas
engelhadas
De me ouvir tantos
brados.
Quero-m'ir ás
taverneiras,
Taverneiros,
medideiras,
Que me dem hua
canada,
Sôbre meu rosto
fiada,
A pagar la polas
eiras.
(Pede
fiado á Biscaïnha.)
Ó Senhora Biscaïnha,
Fiae-me canada e
meia,
Ou me dae hua
candeia,
Que se vai esta alma
minha.
Acudi-me dolorida,
Que trago a madre
cahida,
E çarra-se-me o
gorgomilo:
Enquanto posso
engoli-lo,
Soccorei-me minha
vida.
Biscainha
Não dou eu vinho
fiado,
Ide vós embora,
amiga.
Quereis ora que vos
diga?
Não tendes isso
aviado.
Dizem lá que não he
tempo
De pousar o cu ao
vento.
Sangrade-vos, Maria
Parda;
Agora tem vez a
Guarda
E a raia no avento.
(A
João Cavalleiro, Castelhano).
Devoto João
Cavalleiro,
Que pareceis Isaïas,
Dae-me de beber tres
dias,
E far-vos-hei meu
herdeiro.
Não tenho filhas nem
filhos,
Senão canadas e
quartilhos;
Tenho enxoval de
guarda,
Se herdardes Maria
Parda,
Sereis fóra
d'empecilhos.
João
Cavalleiro
Amiga, dicen por
villa
Un ejemplo de
Pelayo,
Que una cosa piensa
el bayo
Y otra quien lo
ensilla.
Pagad, si quereis
beber;
Porque debeis de
saber
Que quien su yegua
mal pea,
Aunque nunca mas la
vea,
Èl se la quiso
perder,
(Vai-se
a Branca Leda).
Branca mana, que
fazedes?
Meu amor, Deos vos
ajude;
Que estou no ataude,
Se me vós não
accorredes.
Fiade-me ora tres
meias,
Que ando por casas
alheias
Com esta sêde tão
viva,
Que ja não acho
cativa
Gota de sangue nas
veias.
Branca Leda
Olhade, mulher de
bem,
Dizem qu'em tempo de
figos
Não ha hi nenhuns
amigos,
Nem os busque então
ninguem.
E diz o exemplo
dioso,
Que bem passa de
guloso
O que come o que não
tem.
Muita agua ha em
Boratem
E no poço do
tinhoso.
(Vai-se
a João do Lumiar)
Senhor João do
Lumiar,
Lume da minha
cegueira,
Esta era a verde
pereira
Em que vos eu via
estar.
Fiae-me um gentar de
vinho,
E pagar-vos-hei em
linho,
Que ja minha lã não
presta:
Tenho mandada hua
besta
Por elle a antre
Douro e Minho.
João do
Lumiar
Exemplo de mulher
honrada,
Que nos ninhos d'ora
a hum anno
Não ha passaros
oganno.
I-vos, que sois
aviada.
Emquanto isto assi
dura,
Matae com agua a
seccura,
Ou ide a outrem
enganar,
Que eu não m'hei de
fiar
De mula com
matadura.
(Indo
pera casa de Martin Alho, vai dizendo):
Amara aqui hei
d'estalar
Nesta manta
emburilhada:
Oh! Maria Parda
coitada,
Que não tens já que
mijar!
Eu não sei que mal
foi este,
Peor cem vezes que a
peste,
Que quando era o
trão e o tramo,
Andava eu de ramo em
ramo
Não quero deste, mas
deste.
(Diz
a Martim Alho):
Martim Alho, amigo
meu
Martim Alho meu
amigo,
Tão secco trago o
embigo
Como nariz de Judeu.
De sêde não sei que
faça:
Ou fiado ou de
graça,
Mano, soccorrede-me
ora,
Que trago ja os
olhos fóra
Como rala da negaça.
Martim Alho
Diz hum verso
acostumado:
Quem quer fogo
busque a lenha;
E mais seu dono
d'acenha
Appella de dar
fiado.
Vós quereis, dona,
folgar,
E mandais-me a mim
fiar?
Pois diz outro
exemplo antigo,
Quem quizer comer
comigo
Traga em que se
assentar.
(Vai-se
á Falula).
Amor meu, mana
Falula,
Minha gloria e meu
deleite,
Emprestae-me do
azeite,
Que se me sécca a
matula.
Até que haja
dinheiro,
Fiae, que pouco
requeiro,
Duas canadas bem
puras,
Por não ficar ás
escuras,
Que se m'arde o
candieiro.
Falula
Diz Nabucodonosor
No sideraque e
miseraque,
Aquelle que dá gran
traque
Atravesse-o no
salvanor.
E diz mais, quem
muito pede,
Mana minha, muito
fede.
Sete mil custou a
pipa;
Se quereis fartar a
tripa,
Pagae, que a vinte
se mede.
Maria Parda
Raivou tanto
sideraque
E tanta zarzagania,
Vou-me a morrer de
sequia
Em cima d'hum
almadraque.
E ante de meu
finamento,
Ordeno meu
testamento
Desta maneira
seguinte,
Na triste era de
vinte
E dous desde o
nacimento.
TESTAMENTO
A minha alma
encommendo
A Noé e a outrem
não,
E meu corpo
enterrarão
Onde estão sempre
bebendo.
Leixo por minha
herdeira
E tambem
testamenteira,
Lianor Mendes
d'Arruda,
Que vendeo como
sesuda,
Por beber, at'á
peneira.
Item mais mando
levar
Por tochas cepas de
vinha,
E hua borracha minha
Com que me hajão
d'encensar,
Porque teve
malvasia.
Encensem-me assi
vazia,
Pois tambem eu assi
vou;
E a sêde que me
matou,
Venha pola cleresia.
Levar-me-hão em hum
andor
De dia, ás horas
certas
Que estão as portas
abertas
Das tavernas per hu
for.
E irei, pois mais
não pude,
N'hum quarto por
ataude,
Que não tivesse agua
pé:
O sovenite a Noé
Cantem sempre a
meude.
Diante irão mui sem
pejo
Trinta e seis odres
vazios,
Que despejei nestes
frios,
Sem nunca matar
desejo.
Não digão missas
rezadas,
Todas sejão bem
cantadas
Em Framengo e
Allemão,
Porque estes me
levarão
Ás vinhas mais
carregadas.
Item dirão per dó
meu
Quatro ou cinco ou
dez trintairos,
Cantados per taes
vigairos,
Que não bebão menos
qu'eu.
Sejão destes tres
d'Almada,
E cinco daqui da Sé,
Que são filhos de
Noé,
A que som
encommendada.
Venha todo o
sacerdote
A este meu
enterramento,
Que tiver tão bom
alento
Como eu tive ca de
cote.
Os de Abrantes e
Punhete,
D'Arruda e
d'Alcouchete,
D'Alhos-Vedros e
Barreiro,
Me venhão ca sem
dinheiro
Até cento e vinte e
sete.
Item mando vestir
logo
O frade allemão
vermelho
Daquelle meu manto
velho
Que tem buracos de
fogo.
Item mais, mais
mando dar
A quem se bem
embebedar
No dia em que eu
morrer,
Quanto movel hi
houver
E quanta raiz se
achar.
Item mando agasalhar
Das orphans estas nó
mais
As que por beber dos
paes
Ficão proves por
casar.
Ás quaes darão por
maridos
Barqueiros bem
recozidos
Em vinhos de mui bôs
cheiros;
Ou busquem taes
escudeiros,
Que bebão coma
perdidos.
Item mais me
cumprirão
As seguintes
romarias,
Com muitas
ave-marias.
E não curem de
Monção.
Vão por mim á Sancta
Orada
D'Atouguia e
d'Abrigada,
E a Curageira
sancta,
Que me derão na
garganta
Saude a peste
passada
.Item mais me
prometti
Nua á pedra da
estrema,
Quando eu tive a
postema
No beiço de baixo
aqui.
E porque gran gloria
senta,
Lancem-me muita agua
benta
Nas vinhas de
Caparica,
Onde meu desejo fica
E se vai a
ferramenta.
Item me levarão mais
Hum gran cirio
pascoal
Ao glorioso Seixal
Senhor dos outros
Seixaes;
Sete missas me dirão
E os caliz encherão,
Não me digão missa
sêcca;
Porque a dor da
enchaqueca
Me fez esta devação.
Item mais mando
fazer
Hum espaçoso
esprital,
Que quem vier de
Madrigal
Tenha onde se
acolher.
E do termo
d'Alcobaça
Quem vier dem-lhe em
que jaça:
E dos termos de
Leirea
Dem-lhe pão, vinho e
candea,
E cama, tudo de
graça.
Os d'Obidos e
Santarém,
Se aqui pedirem
pousada,
Dem-lhes de tanta
pancada
Como de maos vinhos
tem.
Homem d'Entre Douro
e Minho
Não lhe darão pão
nem vinho;
E quem de riba
d'Avia for
Fazê-lhe por meu
amor
Como se fosse
vizinho.
Assi que por me
salvar
Fiz este meu
testamento,
Com mais siso e
entendimento
Que nunca me sei
estar.
Chorae todos meu
perigo,
Não levo o vinho que
digo,
Qu'eu chamava das
estrellas,
Agora m'irei
par'ellas
Com grande sêde
comigo.
Estará em discussão
neste estudo aquilo a que se poderá chamar a teatralidade intrínseca
da obra de Gil Vicente que anda com o nome de Pranto de
Maria Parda (PMP). Maria Parda lamenta-se pela falta de vinho
nas tabernas de Lisboa, evocando os tempos em que ele era abundante
e barato. Depois, resolve pedir o vinho fiado a alguns taberneiros
que lho negam. Por fim, decide morrer e pronuncia um extenso
testamento que se refere obsessivamente ao vinho.
Na Copilaçam
Figurando no Quinto
Livro e último da Copilaçam de toda as obras de Gil Vicente (1562)
que inclui, segundo informa o próprio compilador (decerto Luís
Vicente), as trovas, e cousas miúdas, o PMP encontra-se ao lado de
textos mais curtos e de espécie aparentemente diferente da dos
autos. Estes haviam sido distribuídos pelos quatro primeiros Livros
e, em quase todos, as notas em epígrafe, ao apresentarem o texto,
assinalavam também a sua representação, com o local, a data e a
ocasião. A maioria de tais rubricas relaciona as ações teatrais com
festas e efemérides ligadas à vida da família real e do paço. Assim
acontece com uma Visitação, que abre o Livro Primeiro e que, com as
suas doze estrofes de monólogo, é coisa bem mais miúda que a maioria
das composições do Quinto Livro. No entanto, nunca lhe poderíamos
chamar as trovas do Vaqueiro porque foi texto representado na câmara
da rainha (1502), segundo os preceitos e instruções relativa à
representação teatral.
A rubrica do Pranto,
que serve de título na Copilaçam, escreve assim:
De Gil Vicente em
nome de Maria parda fazendo pranto porque viu as ruas de Lisboa com
tão poucos ramos nas tavernas e o vinho tão caro e ela não podia
viver sem ele
A colocação do PMP
no último livro não é argumento para determinar o seu carácter de
trovas escritas para leitura. O Quinto Livro é uma secção sortida de
restos, perdidos e achados felizes de obras que andavam publicadas
em folhetos e copiadas em cancioneiros de mão.
Na época manuelina
eram tênues as fronteiras que separavam a invenção e execução da
poesia das do teatro. E muito haveria a dizer sobre a teatralidade
inerente à produção poética que figura no Cancioneiro Geral.
A própria Copilaçam
de Gil Vicente, embora não no título mas sim nos antetextos, é
chamada cancioneiro, ou seja, coletânea poética, obra para ser lida.
E é possível que o fosse já então. O que não exclui a
representabilidade dos textos aí coligidos.
Sátira e Datação
Se na disposição do
PMP em livro não se acham provas conclusivas respeitantes ao
estatuto da obra, procuremo-las no conhecimento das circunstâncias
que envolveram a sua produção.
Vem a obra
intratextualmente datada de 1522:
na triste era de
vinte
e dous desd’o
nascimento
Na cronologia
vicentina terá sido composição de uma época em que o autor já não
fazia os autos de El-rei D. Manuel (falecido em Dezembro de 1521) e
ainda não fazia os de D. João III. Luciana Stegagno Picchio fala dum
Gil Vicente desempregado do paço, devido ao luto, e atuando nas ruas
de Lisboa, mais perto do povo. Em 1521 já Gil Vicente teria composto
uma comédia para o então príncipe D. João, a de Rubena, e nesse
mesmo ano de 22 estaria talvez a compor o D. Duardos para enviar e
oferecer ao mesmo D. João. Pouco antes no final de 1521, as trovas
relativas à aclamação do novo rei e, sobretudo, as cópias atribuídas
fantasiosamente, pela invenção do autor, a certos membros da
nobreza, do clero e do município de Lisboa, eram com certeza
destinada ao soberano, pois vão carregadas de conselhos para a
governação, do tipo dos que figuram nas artes de reinar. Nessas
cópias, a tônica é posta na necessidade de o jovem monarca proteger
o seu povo, o gado arrepiado, as ovelhas suspirando / sem abrigo, os
lavradores, os povos menores, ou seja, esta manada a que o rei
deverá dar pasto
porque o povo
coitado
não coma pão de
dolor
E a última fala
trovada é atribuída à própria personagem Povo.
Frei Luís de Sousa
viria a descrever com veemência, nos seus Anais a esterilidade e a
seca de 1521, assim como a fome que Lisboa viveu nos finais desse
ano e ao longo do seguinte. Em começos de 1522 morria-se de fome nas
ruas da capital, tal como Maria Parda vai morrer de sede. O
cronista refere-se igualmente ao sofrimento do jovem rei com a
desgraça, e à medida que tomou para atenuar a calamidade social em
Lisboa.
No PMP, os seis
taberneiros que recusam fiar o vinho poderão representar um mercado
lisboeta sovina, nos antípodas da caridade e do espírito das
Misericórdias em que se empenhou a rainha D. Leonor e, com ela, o
próprio Gil Vicente. Por encomenda da rainha, para ajudar as suas
instituições e o espírito de caridade cristã que as sustinha,
realizara Gil Vicente uma ação teatral sobre o milagre de São
Martinho, em 1504, na igreja das Caldas, na procissão do Corpo de
Deus. Há parentescos entre o auto de São Martinho e o PMP, e este
último apresentam traços que podem ser vistos como uma inversão
parodística e carnavalesca do primeiro: tal como Maria Parda o pobre
(figura do próprio Cristo) começa por lamentar ou prantear a sua
falta, a sua miséria, e também pede. Se São Martinho, na boa ação
que realiza em cena, tematiza a virtude da caridade
institucionalizada (as Misericórdias), os taberneiros poderão
representar o vício avareza e não apenas a crise econômica.
Um dos taberneiros é
um cristão-novo e todos usam sentenças economicistas, relativas à
poupança e aos preços. Ao colocar programaticamente dois provérbios
em cada uma das cópias correspondente a cada uma das falas dos
taberneiros, Gil
Vicente conjuga oportunamente, como é regra na sua produção
artística, o virtuosismo retórico do constrangimento poético,
a que se obriga, com a caracterização judaizante e materialista das
personagens dos vendedores.
As prosopopéias
animais são tradições medieval. No PMP, mais realista e usando de
outra invenção ou estratagema ficcional, igualmente tradicional __ o
travestissement goliardesco __, é digna de nota a multiplicação das
referências a preços e medidas: tão alta está a canada, de crecerem
as medidas, cento e um cinquinho, a dezaseis o dão, sete mil custou
à pipa, etc.
Esta será uma
hipótese de sentido para a obra vicentina: a sátira à carestia, a
queixa pela fome, o apelo à caridade. Outra se lhe pode opor: em
época de escassez, Maria Parda representa o desgoverno, o gasto
excessivo com vícios terrenos, ou mesmo o pecado; os
taberneiros, por oposição, são figuras que representam uma certa
prudência, baseada na sabedoria proverbial popular. A morte final
de Maria Parda seria como que o castigo da sua dissipação.
A haver sátira, o
PMP terá sido composto nos começos de 1522 ou no fim do mesmo ano,
pois é obra de Inverno: Maria Parda diz que despejei nestes frios,
referindo-se ao vinho já bebido por si, o que lembra um Inverno
adiantado. Se realmente o PMP se prestou à atividade teatral, a
determinação da época do ano não é inútil, dado que o teatro
vicentino procedia quase sempre de festas e celebrações, querem
extemporâneas e pontuais, quer cíclicas as de natureza agrária e
religiosa.
Em finais de
Dezembro de 1522 andava a Câmara a dialogar com o rei acerca da
imposição nova que até então vigorava sobre o vinho, e que D. João
III resolveu retirar (a 30 de Dezembro), mas que a Câmara propôs se
mantivesse por troca com o imposto ou a dedução sobre o pão
importado. Alegavam os vereadores que a imposição nova sobre o
vinho, do tempo de D. Manuel, era mais fácil de suportar que a dita
necessidade do pão, já que na cidade de Lisboa existia abastança de
vinho e assim em todas as comarcas e tal imposição havia sempre
dedução leve de sofrer aos vereadores. Terá o PMP algo a ver com
este negócio? É muito possível, sobretudo porque o referente Lisboa
está bem patente ao longo da obra. Mas se alastrava a abundância de
vinho no final de Dezembro de 1522, que sentido tinha um pranto
sobre a sua falta, ainda que face cioso e alegórico? Mais parece
obra de Quaresma ou de Carnaval, época que se iniciava nas matinas
do Natal (de 1521, neste caso) e percorria as festas de Janeiro até
a Quaresma, incluindo a quarta-feira de Cinza e a Mi-carême.
Quanto à localização
deste eventual auto, a própria Maria Parda a indica, ainda que de
modo impreciso: “d’aqui da sé” (261b). Não sabemos se aponta para o
bairro da Sé, i.e., para uma rua ou praça dessa zona, se para o adro
da Catedral, se para o seu interior, se para um claustro. Lembro,
como sugestão, que uma das capelas do claustro era então a sede da
irmandade da Misericórdia. Sob invocação de N.ª S.ª da Piedade, era
essa capela chamada da Terra Solta, pois nela se praticava a devoção
anual do enterro dos pobres. Note-se que o PMP encena um pedido de
piedade e um enterro: Maria Parda vai morrer e faz as disposições
para o seu funeral.
A datação
intratextual leva a pensar que o mais antigo folheto conhecido
deverá ter circulado exatamente nesse ano de 1522.
E que dizer das
impressões posteriores em folhas volantes? São elas de 1619
(perdida), de 1643, de 1645 e de 1665. Em todas estas datas faltava
o pão na cidade de Lisboa e a população sofria grande carga
tributária, o que mostra bem a oportunidade do PMP em tempos de
crise. Mas, ao contrário do que aconteceu em 1522, em 1619 e ainda
em 1665 houve legislação específica sobre o preço do vinho, o que
terá favorecido a leitura do PMP à letra, ou seja, como obra sobre o
vinho e não como metáfora carnavalesca. Em 23 de Maio de 1619 foi
permitida a subida de preço do vinho, o que conduzia sempre à
carestia gananciosa; em 1643, Dezembro, um decreto sobre o preço do
vinho em Lisboa alude à esterilidade geral das vinhas; a 10 de
Novembro de 1665 foi proibida a venda de vinho em Lisboa, até ao
primeiro de Dezembro, por causa das grandes doenças que na cidade se
padecem. Havia sempre interesses contraditórios na fixação do preço
do vinho, feita a 10 de Novembro de cada ano, ou seja, na véspera de
S. Martinho: por um lado, o consumidor, por outro, o lavrador, e por
outro, o taberneiro, sendo sempre este o mais interessado no aumento
do preço, e defendendo a edilidade geralmente os primeiros.
Ao tematizar a falta
e a carestia do vinho, o PMP continuava a fazer sentido em
determinadas circunstâncias. Ao significar, por meio do vinho, a
escassez e a falta, quer do pão, quer de algo essencial à
sobrevivência humana, o PMP continua e continuará a fazer sentido.
Pranto / Diálogo /
Testamento
O PMP é uma extensa
composição, homogênea do ponto de vista da versificação: 369 versos
de redondilha maior distribuídos por 4l estâncias ou cópias de 9
versos ou pés, por sua vez divididas sempre em dois grupos rítmicos:
4+5. Esta regularidade, própria dos monólogos dramáticos, aproxima-o
das trovas e da poesia lírica e distancia-os dos autos, onde a
versificação não é rigorosamente igual do começo ao final.
A esta regularidade
vêm adicionar-se outras estruturas demonstrativas do virtuosismo do
autor, qualidade que era então muito apreciada no trovador. O PMP
foi aliás composto numa fase da arte vicentina em que o dramaturgo
ensaiou o apuro literário, esmerando-se na experimentação da alta
retórica e escolhido estilo, como ele próprio disse ao oferecer o D.
Duardos ao jovem rei. É a época dos romances, do diálogo-monólogo em
eco da comédia Rubena (3.ª cena), dos solilóquios líricos, ou árias,
de D. Duardos.
Embora seja
conhecida como o Pranto de Maria Parda, a obra é compósita
pois integra três gêneros ou tipos enunciativos imediatamente
reconhecíveis: o pranto, nomeado na rubrica, o diálogo com
provérbios e o testamento, também nomeado em rubrica interlinear.
São catorze estrofes de pranto: uma delas inserida no meio do
diálogo, doze de diálogo, no gênero palaciano da pergunta
(pedido) / resposta, e quinze estrofes de testamento, este,
tal como o pranto, na voz exclusiva de Maria Parda. Dois
monólogos ligados por um diálogo. Os autos vicentinos
apresentam-se freqüentemente como verdadeiros mosaicos de gêneros,
numa abundância manuelina sem precedentes e sem sucessão na
literatura portuguesa.
O pranto ou
lamentação é aqui carnavalizado, pois exerce-se sobre a morte do
vinho, e não sobre a do rei, de um nobre, ou do ser amado
(lamentação amorosa). Do pranto ou complacente goliardesca,
freqüente noutras literaturas européias, encontramos um espécime
feito por Anrique da Mota a um clérigo, com uma estrutura tripartida
semelhante à vicentina. Figura ele no Cancioneiro Geral que contém
também prantos sérios à morte do príncipe D. Afonso e do rei D. João
II. Gil Vicente abriu com uma lamentação amorosa a comédia Rubena,
de 1521, e esboçou dois curtos prantos fúnebres no interior do seu
Romance à morte de D. Manuel, também de 1521, nas vozes da Infanta e
da Rainha estrangeira. Mas o assunto báquico (bacanal) do PMP é
único na obra vicentina __ uma experiência do autor. Há que não
esquecer que o velho pranto, ou planh ou planctus, é
um dos gêneros poéticos mais próximos do teatro, não só pela atuação
ilógica a ele inerente, mas também pela sua inserção ritual nos
cortejos fúnebres que se seguiam à morte de príncipes e de reis.
Quanto ao outro
monólogo dramático, o testamento, ele é amostra isolada na
produção de Gil Vicente __ outra experiência do autor. Mas é larga e
chega aos nossos dias a sua tradição européia, em contrafacção
paródica. Gil Vicente cumpre as regras e fórmulas deste gênero
notarial (datação, itens, encomenda da alma, nomeação dos
testamenteiros, disposições para o funeral, etc.).
O diálogo, de doze
cópias, onde alternam as vozes de Maria Parda e dos seis
taberneiros, lembra e não lembra os diálogos contidos nos autos.
Como neles, surgem personagens tipificadas; mas não me recordo de
encontrar mais nenhum diálogo vicentino sujeito à regra numérica de
uma cópia por fala. De notar ainda outras regularidades que
contribuem para a estilização dessa parte mediana do PMP,
tornando-a, tal como as duas restantes que a emolduram, textos
autônomos, que poderiam figurar numa antologia poética. Uma dessas
regularidades consiste na presença obrigatória de dois aforismos em
cada fala-estrofe dos seis taberneiros; outra, na referência à morte
em cada fala--estrofe de Maria Parda. O virtuosismo de retóricas
fazia parte dos hábitos da produção poética cortesã; a mestria, a
dificuldade lúdica e a ostentação versificatória eram muito
apreciadas e louvadas num trovador. E Gil Vicente soube mostrar-se
trovador exímio em muitos dos trechos que inseriu nos seus autos.
Este diálogo com provérbios pertence ao gênero perguntas e respostas
das tenções poéticas dos serões palacianos, assim como ao sistema
das ajudas e demais jogos florais escritos ou improvisados nesses
serões.
O artificialismo
literário do diálogo denuncia uma intenção cortesã, e pede um
público letrado, mais do que a arraia miúda, um público leitor, mais
do que espectador de teatro. O tipo de humor não é tão imediato,
excessivo e primário como o de outras obras vicentinas destinadas à
representação cênica. Neste sentido, e paradoxalmente, o diálogo
aproximar-se-ia do estatuto poético das trovas de cancioneiro,
enquanto o pranto e o testamento dele se afastariam.
Os monólogos
dramáticos encontram-se distribuídos pelo teatro vicentino de
diferentes modos: gozando de alguma autonomia (o do Vaqueiro, por
ex.); com uma função prologal (a pregação na Mofina, o sonho no
Templo de Apolo, o Pater Noster trobado no Velho da Horta, os
prognósticos na Exortação); incorporados no interior dos autos (a
ladainha no Velho, o sermão de amor nas Fadas, as pragas em Quem tem
Farelos?). Todas essas falas monologais são, no entanto, mais breves
que as de Maria Parda. O fator memória teria o seu peso. Para os
monólogos dramáticos recomendavam os contemporâneos uma extensão que
não excedesse as cem linhas ou versos (Aubailly, 97). Não é o caso
do PMP pois, quer no pranto quer no testamento, ultrapassa esse
número. Não é também o que se passa na Pregação de Abrantes, com os
seus quase quatrocentos versos de arte maior: sabemos, pela rubrica,
que foram recitados de memória pelo autor.
Convirá não duvidar
das memórias de então, quer as de autor quer as de actor, e Gil
Vicente exerceu ambos os papéis. Também o escudeiro referido na
Aulegrafia de J. Ferreira de Vasconcelos sabia de cor as trovas de
Maria Parda. Se Gil Vicente disse o sermão em Abrantes,
afigura-se-me verossímil que possa ter pronunciado com a sua voz a
fala de Maria Parda, com ou sem o seu corpo de actor (um manequim ou
bonifrate não é de excluir, neste caso). Os mecanismos ou as
técnicas oratórias de memorização estão patentes em ambos os textos:
a rigorosa divisão macrotextual, o uso dos lugares, e a anáfora
sistemática, no início do verso e no da estrofe, quer literal quer
semântica, quer referencial quer discursiva (apóstrofes às ruas de
Lisboa,nomeação dos taberneiros, enumeração das vontades fúnebres e
das zonas de vinho, em parada monumental). Mas o PMP exige talvez um
maior grau de fingimento que o sermão sobre a peste: neste havia
apenas uma fala moral, enquanto naquele Maria Parda existe como
personagem em situação, não só enunciativa mas também diegética.
Unidades dramáticas
l. Personagens
Maria Parda é
personagem feminina, o que é raro no gênero monólogo dramático de
então. Ela faz parte das comadres vicentinas velhas, todas
personagens de teatro. A linguagem e a sua posição enunciativa __ um
estado elementar de necessidade, uma atitude pulsional __
assemelham-se às da mãe de Isabel em Quem tem Farelos? E às velhas
do auto da Festa e do Triunfo do Inverno. Maria Parda sofre ainda a
caracterização de beberrona, o que não acontece com as suas
congêneres, sendo suporte de uma série de traços goliárdicos
(devassos) (a solidariedade das tabernas, os seus queridos manos e
manas).
Se juntarmos tudo o
que vai caracterizando Maria Parda obteremos um conjunto
extraordinariamente variado: além do traje (a nudez e o manto), e da
descrição realista do corpo velho e doente, existe a linguagem
figurativa (repetições, trocadilhos, exageros, ironia), a
mistura de níveis ou registros (da retórica cortesã à mais
vernácula obscenidade), a forma arcaizante da segunda
pessoa do plural (socorrede-me), as insistências num campo
semântico muito primário (comida, doenças, preços,
roupa), e uma riquíssima variedade ilocutória (lamento,
pragas, apóstrofes animizadoras, exclamações, processos de sedução,
pedido, grito, promessa). Note-se que não se trata de uma personagem
de negra, quando muito uma Maria Mulata, pois que não existe
qualquer fórmula específica da língua de preto, já então codificada.
Mas o que fica sem resposta segura é o seguinte: terá havido um
corpo de ator (Gil Vicente?) a representar este corpo?
Se olharmos de perto
cada um dos seis taberneiros, com falas de apenas nove versos, dos
quais três ou quatro são obrigatoriamente ocupados com provérbios,
deparamos com uma caracterização bem concreta de alguns deles: a
Falula mostra-se grosseira, João Cavaleiro é cristão-novo, Branca
Leda só fala de comida. Estes taberneiros lisboetas funcionam ainda,
note-se, como uma espécie de coro que comenta as súplicas de Maria
Parda.
2. Ações
O PMP não é apenas
uma fala deliberada numa situação ficcional. A fala vem acompanhada
de ações a delinearem um breve enredo, se bem que simplicíssimo, e
essas ações são predominantemente verbais:
1ª a queixa pelo mau
presente, com evocação do bem passado;
2ª a decisão de
pedir fiado;
3ª o ato de pedir;
4ª a recusa dos
taberneiros (repetição em alternância destas duas ações, por seis
vezes);
5ª a decisão de
morrer;
6ª a ordenação do
testamento.
Todas as ações
ocorrem em presença, tal como o discurso direto das personagens, e
implicam um desfecho no futuro: Maria Parda irá morrer. Prevalece a
mimese e a exibição sobre a revelação, ao contrário do que acontece
em muitos dos monólogos dramáticos europeus, que são falas
narrativas.
Assistimos a
passeios e cortejos de Maria Parda pelas ruas dos bairros orientais
de Lisboa, ou, ao invés, ao desfile dessas ruas, magicamente
convocadas pela aflitiva apóstrofe de Maria Parda ao nomeá-las: Rua
de S. Gião, Travessa de Mata-Porcos, carnicerias, Rua da Ferraria,
Biscainha, etc. Usando máquinas, poder-se-ia fazer rodar diante dos
olhos do espectador cada uma das ruas e tabernas interpeladas em
cada estrofe. Seriam as praças e vielas a passar por Maria Parda e
não esta a atravessá-las. Mas também ela se move, segundo informam
algumas didecássilabas, na seqüência da decisão quero m’ir às
taverneiras (260b): Vai-se a Branca leda, Vai-se a João do Lumiar,
indo pera casa de Martim alho.
Ocorre aqui o
argumento de natureza extratextual a favor da teatralidade
intrínseca desta peça vicentina. A similaridade existente entre esta
estrutura de deslocação cênica e a cerimônia dos prantos fúnebres na
capital, em Dezembro de 1521, quando morreu D. Manuel: o cortejo
desfilava por certas ruas de Lisboa e parava em pelo menos três
lugares definidos, onde se quebravam os escudos (equivalentes
sérios, não carnavalescos, das tabernas que Maria Parda visita); os
trajes eram mantos negros (Maria Parda vai emburilhada numa manta);
e grandes eram as manifestações de dor (não menores que as de Maria
Parda). Vem ao pensamento à comparação entre o PMP e o pranto de D.
Manuel, do qual aquele seria então uma espécie de reverso
parodístico, irreverente, cômico e satírico.
3. Dícticos
(elementos do discurso)
Para lá dos virtuais
movimentos cênicos, derivados da intriga, que implicam quer um
espaço visível, quer uma duração, sobressai nos enunciados a
presença material do corpo de Maria Parda, para cujas partes ela
mesma chama repetitivamente a atenção e os olhos do espectador: a
falta de dentes, as gengivas, os braços, os beiços, as orelhas, as
queixadas. Acresce que esses fragmentos do organismo são animizados,
pois tornam-se eventuais interlocutores, dramaticamente
apostrofados. O mesmo acontece com as ruas de Lisboa, as pipas de
vinho ou as manas bebedoras (ausentes): todos são compelidos a
gritar e a lamentar-se. Também na sua lamentação o pobre do auto de
S. Martinho se endereçava às partes doentes do seu corpo. Maria
Parda estimula esse corpo a exprimir-se:
ó gengibas e arnelas
deitai babas de
secura.
Carpi-vos beiços
coitados
Acompanha toda esta
agitação dramática, própria do código genológico (teoria
dos gêneros literários) do pranto, o efeito de presença
criado pelos dícticos estas, esta, estes e aqui, assim como as
referências à indumentária e a alguns adereços cênicos: estas
queixadas, esta erra verde pereira / em que vos eu via estar, Amara
aqui hei d’estalar / nesta manta emburilhada, que despejei nestes
frios, d’aqui da sé, no beiço de baixo aqui.
4. Tempo e
ausência
Esta tão acentuada
presença contrasta significativamente com o tema da falta
e da ausência.
Ausentes os tempos passados e as tabernas da Lisboa antiga, cheia de
vinho; ausentes os tempos futuros de ofícios fúnebres, no pós-morte,
também eles cheios
de vinho.
O que está presente
em cena é a ausência, o vazio, e a sede __ seja no corpo de Maria
Parda, ressequido, sem roupa, sem dentes e tão leve e aéreo, seja no
tempo e no espaço: as pipas ocas, e o momento de necessidade. O que
está ausente é o de que Maria Parda constantemente fala, recordando
o passado e incitando a um futuro de plenitude. Ao nomear a
ausência, convoca-a magicamente a uma presença absorvente, excessiva
e sobrerreal: o vinho, os tempos utópicos de abundância, o espaço
lisboeta das tabernas e demais territórios vinícolas de Portugal.
Esta presença fantasmagórica do vinho agiganta-se no pranto, e
sobretudo no testamento, verdadeiro triunfo do vinho.
No pranto, por três
formas:
l.º
por nomeação e interpelação direta e afetiva: ó vinho mano meu
vinho, ó bicos de minha mama;
2.º
pela metonímia realista, pois todos os objetos chamados à presença
são recipientes ou lugares de vinho, mas sem ele, desde as medidas,
às pipas vazias e aos tornos quebrados, desde os taberneiros que não
vendem às partes do corpo onde devia passar o vinho (goelas,
gorgomilo);
3.º
pelo desenvolvimento do topos da passada idade de ouro e de
abundância, um tempo vivido em gloriosa solidariedade: o frenesi da
evocação báquica equivale ao estado lancinante de sede e de secura,
a cada passo reiterado dum modo naturalista, como se vai ver.
Quanto ao
testamento, nele se visiona um futuro de fartura, pois só o presente
é de crise e de falta, personificadas na própria Maria Parda. Daí a
quantificação hiperbólica, a acumulação cada vez mais excessiva de
tudo o que diz respeito ao vinho, no gênero copioso do banquete
fúnebre, de origem pagã, a contrastar com o grotesco e a escassez
dos legados de Maria Parda __ trapos e uma borracha. A estrutura do
testamento é enumerativa e acumulativa; predominam os plurais, assim
como o sempre, o amiúde; e o exagero numérico vai em crescendo
(trinta e seis odres, quatro ou cinco ou dez trintairos, cento e
vinte e sete vigários). Também a dessacralização devassa atinge, não
um ou dois objetos, mas grande quantidade: os turíbulos, as tochas,
o ataúde, a água benta e o próprio Deus convertem-se em borrachas,
cepas, pipas, malvasia e Noé. Maria Parda pinta um universo
desmesurado, a transbordar de vinho: sacerdotes todos bêbedos,
escudeiros e barqueiros recozidos, órfãs de pais alcoólicos, etc.
Só numa cena futura
o mundo poderá apresentar-se fértil e pujante de vinho. E, mais
importante, só após a morte de Maria Parda, cujo corpo terá de
perecer. Trata-se então de uma morte sacrificial, em toda esta
paródia de tragédia: a minhoca que puseram a secar no começo deste
auto irá ao final, para as estrelas altas e longínquas __ da terra
para o céu __ mas com grande sede, como diz o último verso.
Naturalismo e
simbolismo
l.
O corpo grotesco e pardo da terra
No PMP sobressai a
figuração da velhice. À personagem convencional do clérigo beberrão
preferiu Gil Vicente a da velha, menos apta para a sátira e mais
naturalista. Personagem da tradição popular (em Itália, por ex., nos
cantos de vinho; em Portugal, na festa de Santa Bebiana), não é aqui
apenas um tipo cômico, ou de farsa, semelhante a outras comadres
velhas, mas é essencialmente um corpo seco, pronto para morrer. Dele
emana uma fala que funciona como o seu prolongamento, a sua
expressão fisiológica e natural. Este corpo velho encontramo-lo num
outro auto vicentino, o Triunfo do Inverno, onde se evoca um rito de
passagem. A velha que atravessa descalça a serra nevada, para casar
com um mancebo tão bem feito / que é uma consolação, personifica o
Inverno a que se seguirá a Primavera. É descrita como corcovada e
enrugada, com as gengibas inchadas. Dela se diz: No sentis que sois
ya tierra? E ela própria acaba exclamando, tal como a Maria Parda ao
ir vazia para as estrelas: que vou cada vez mais leve (178b).
O corpo de Maria
Parda mostra-se grotesco; envelhecido (triste desdentada escura,
arnelas, orelhas engelhadas), doente (mazelas, olhos fora, postema
no beiço, a dor da enxaqueca) e, acima de tudo, oco e seco (deitai
babas de secura, ventosidade, hei de estalar, tão seco trago o
embigo, morrer de sequia, assi vazia, sem gota de sangue nas veias,
não tens já que mijar). Predomina o motivo da sede e da secura, que
se estende a todas as coisas e seres: os tonéis secos, a louça e as
pipas vazias, a Ribeira areeira.
Impossível não
estabelecer o paralelo entre as palavras de Frei Luís de Sousa ao
evocar tanto a fome de 1522, quanto a seca e a esterilidade de 1521
que a provocaram: As terras delgadas se desfaziam em cinza; as
grossas se apertavam e abriam em fendas até o centro (Anais, L. I,
cap. XI). Assemelham-se as imagens do corpo gretado da terra e do de
Maria Parda, até na cor cinza. Ao evidenciar o corpo da velha, Gil
Vicente naturaliza-o e identifica-o simbolicamente com a própria
terra que se encontra velha, doente, seca e parda, a necessitar de
ser renovada com o líquido regenerador: a água.
Repare-se que as
partes e as funções orgânicas nomeadas são sempre as correspondentes
a necessidades primárias e naturais: as escatológicas (ventosidade,
traques, mijar) e as alimentares (beiço, gorgomilo, engolir, fartar
a tripa).
Sistemáticas são
também as referências vegetais à árvore vital, associada à presença
do vinho nas tabernas, com a nomeação dos seus ramos, da sua verdura
e até das suas espécies (pereira, pinho, maias). Essa árvore aparece
gravada nas vinhetas de quase todos os folhetos impressos. Ela e o
corpo de Maria Parda, bem como os seus ditos, assinalam o ciclo da
vida, do nascimento à morte, passando pela doença: que má hora me
paristes, bicos de minha mama, a madre caída, os tramos da peste.
Nos três versos que se seguem, patenteia-se o contraste e a
proximidade entre a vida e a morte:
com esta sede tão
viva
que já não acho
cativa
gota de sangue
nas veas.
Também a terra não
acha o humor, o suco subterrâneo que fará germinar o seu grão, ou
seja, a chuva que terá que cair do céu.
O ciclo da vida
humana, aqui rematado com a morte de sequia, aparece intimamente
ligado com o da vegetação e o das estações do ano, próprios da
natureza agrícola e designados segundo o ciclo litúrgico: avento,
nacimento, carisma, paixão, verão, eiras.
2. A morte da seca e
o vinho da vida
A tematização da
morte, em todos os níveis de elaboração do PMP, afasta esta obra de
outras composições de teor meramente goliárdico ou de sátira social,
e aproxima-a das manifestações simbólicas de origem folclórica e
ritual. Em Gil Vicente casam-se certos comportamentos naturalistas,
próprios da festa e do teatro, onde se manifesta a herança ancestral
de ritos que começaram por ser sagrados e agrários, com a mais
apurada retórica cortesã (o virtuosismo do trovador-poeta) e ainda
com as necessidades de circunstância, muitas vezes de intervenção
satírica (caso da crítica à carestia ou então ao esbanjamento
financeiro e aos excessos da carne).
Encontramos o tema
da morte, em primeiro lugar, no plano enunciativo: o pranto,
o diálogo __ derradeiro debate ou agon (debate verbal das
personagens) __ e o testamento. Em segundo lugar, no
plano narrativo: a doença da falta só acabará com a morte, no
pós-morte. Em terceiro lugar, no plano semântico e vocabular:
Maria Parda alude repetidas vezes à morte, pela referência à candeia
de azeite (rito de morte mas também metáfora do vinho), e, no
testamento, abunda o léxico fúnebre.
É sabido que o
teatro deu continuidade ao simbolismo dos ritos agrários e à sua
imitação lúdica, como a deu aos grandes temas da luta e sucessão
entre a morte e a vida, entre as calamidades e a expulsão do mal
pela morte, entendida como sacrifício propiciatório à resolução de
uma grande desgraça coletiva. Neste caso seria a seca da terra e a
fome dos moradores de Lisboa e dos que chegavam à capital em busca
de pão, morrendo nas suas ruas. Se Maria Parda pode figurar um dos
esfomeados que Lisboa tem o dever de alimentar ou, pelo menos, de
enterrar, também pode figurar o herói pecador da tragédia, aqui
carnavalizado num pathos sacrificial parodístico. Os manequins de
Carnaval funcionavam muitas vezes como simulacro do bode expiatório
dos pecados de uma comunidade.
Do cruzamento de
todas estas linhas de significação pode concluir-se que o PMP
realiza a personificação alegórica e a dramatização do próprio ciclo
da vida e da morte, incluindo as catástrofes naturais, sociais e
econômicas: estas últimas como que se naturalizam. Igual
procedimento simbólico encontra-se na raiz da Mofina Mendes,
personificação teatral não só da má sorte natural mas também do
desgoverno e esvaziamento dos cofres reais (a burra, o gado
perdido), tudo a necessitar de remédio __ neste caso ele virá da
intervenção divina do Redentor, pois o auto de Mofina é de Natal e
representa o mistério.
Para que a chuva
apareça, a terra frutifique, a vida renasça, Maria Parda terá que
perecer, pois encarna tanto a fome coletiva como a terra velha e
exangue, o ano seco e estéril, a própria morte. Neste sentido, a
morte de Maria Parda, no inverno de 1522, adquire o valor catártico
de afastar o mal da seca e de atrair o bem da chuva. Então poderá
brotar a abundância, pintada em dimensão gigante no apoteótico
testamento de vinho. O vinho estará pela própria vida __ o sangue
nas veias que falta à Maria Parda __ e não só pelo pão necessário à
vida.
O registro
goliárdico, fator de carnavalização proveniente da tradição já
popularizada dos cânticos báquicos (orgíacos), possui um valor
alegórico e não só literal. O tema báquico, que tão bem se ajusta a
umas trovas e que lhes confere grande coesão teatral e literária,
revela afinal as suas origens teatrais. Não era Dionísio ao mesmo
tempo o pai do teatro e o pai da vinha? E não era o vinho o sangue
da terra?
As festas e a
paródia
Ritos e invenções
jocosas como a luta entre as estações, ou entre o ano velho e o
novo, ou entre o Carnaval e a Quaresma, vêm sugeridas de forma
subliminar neste auto. Em António Prestes, Maria Parda surge
contraposta ao ano bom: n’um [portal] pintar-lhe o ano bom / n’outro
maria parda (1587, 9c).
A busca dum futuro
de felicidade pela representação duma sociedade em crise, ruptura ou
luta __ aqui o drama de Maria Parda, gastadora e necessitada, e a
sua discussão com os taberneiros, sovinas e prudentes __ é intenção
própria dum teatro cujo fundo é ritualístico. No testamento, os
legados e as vontades fúnebres podem exprimir aspirações coletivas.
Assim acontece nos testamentos facetos e burlescos, lidos em voz
alta, que acompanham, em Portugal, o enterro do João e do Entrudo,
ou a serração da Velha (Veiga de Oliveira, 1984). Apresentam o mesmo
carácter excessivo e exuberante, a mesma técnica acumulativa, a
mesma estrutura de desfile, o mesmo registro de licenciosidade e de
transgressão carnavalesca. São ditos em festas que correspondem a
ritos de passagem: do Inverno para a Primavera, do Entrudo __ tempo
de dissipação, satisfação e desmedida __ para a Quaresma __ época em
que a semente deverá germinar. Segundo a lógica do pensamento
mágico, a germinação é favorecida pelo fim do desregramento, do
tempo dos prazeres e excessos da carne, e pela abstenção alimentar,
pela guarda, às quais podemos associar Maria Parda e a sua
abstinência forçada.
Os demais
componentes de carácter ritual, cujo fundo pagão e mágico se mistura
com elementos cristãos, vão desde as ações enunciativas __ súplicas,
lamentações, maldições, exortações __ até às personificações ou às
apoteoses e triunfos __ aqui os do vinho e da abundância __ e ao
sacrifício __ a morte de Maria Parda.
Ao contrário do que
acontece, por ex., com Anrique da Mota, Gil Vicente trabalha neste,
tal como noutros autos, sobre elementos originários das
manifestações teatrais de carácter festivo e coletivo.
O modo processional
patente em toda a obra, a todos os seus níveis, assim como as
manifestações de pranto e, depois, de últimas vontades são também
típicos dessas festividades. Lembro algumas:
a)
o São Martinho (11/Nov.), festa que inaugurava o Inverno na antiga
liturgia moçárabe (liturgia praticada pelos cristãos ibéricos),
anterior a Gil Vicente: aparece o vinho novo, festejado por vezes
com cortejos de bêbedos; na véspera era decidido pela Câmara de
Lisboa o preço da venda do vinho nas tabernas (pelo menos nos séc.
XVI e XVII);
b)
a Santa Bebiana (2/Dez.), advogada das mulheres bêbedas:
realizam-se, em certas aldeias, desfiles que afixam as confrarias
dos irmãos do vinho;
c)
o Natal e a sua oitava, ou os Reis, ocasião em que se bebia bastante
e período de liberdade licenciosa, propício a paródias;
d)
a passagem do ano, quando se deixa o velho e se fazem votos para o
novo, o ano bom (o que estaria de acordo com o passo atrás citado de
António Prestes);
e)
também nas Janeiras se efetuam cortejos e se fazem pedidos;
f)
São Vicente, patrono de Lisboa, com festa em 22 de Janeiro;
g)
no Carnaval, a celebração ritual do enterro do Entrudo ou do João,
por vezes já na Quarta-Feira de Cinzas;
h)
a serração da Velha, celebrada a meio da Quaresma, é um intervalo
festivo em que a vítima é uma velha; modernamente inclui a leitura
dum testamento em verso.
Além de conter
unidades comuns às invenções que preenchem todas estas festas, o PMP
serve ainda em todas as épocas de aflição, de miséria, de falta de
víveres, de aumento dos preços, ou ainda nas de puro divertimento. A
paródia por rebaixamento do sublime, do trágico, do sério e do
sagrado, é ingrediente obrigatório dessas manifestações coletivas, e
não falta no caso do PMP:
__ o luto que se
pranteia não se refere a uma pessoa régia ou nobre, mas ao
vinho, exprimindo
uma necessidade carnal, fisiológica e primária;
__ as fórmulas
literárias próprias das lamentações amorosas e dos prantos régios
vêm misturadas com grosserias, pragas e alusões escatológicas: todos
os traques que dou / são suspiros de saudade;
__ as referências
religiosas ao Natal e à Paixão de Cristo trazem a lembrança
do vinho (a paixão
dos tornos);
__ no testamento, a
dessacralização pela paródia litúrgica é total: da tradicional
divinização de Noé até às romarias de vinho, à borracha por
turíbulo, aos vigários bêbedos, à água benta nas vinhas.
A haver
representação destas trovas, ou seja, a haver ato ou auto, ele
ocorreria certamente num período de permissividade e de festa.
Tudo isto nos fala
de teatro. Não significa que o PMP tenha constituído uma ação
teatral vicentina, ainda que fosse texto praticado então, ou pelo
menos sabido de cor por escudeiros amantes de teatro. Mas significa
que tinha, e tem, todas as condições para ser teatro, pois, como
aqui tentei mostrar, exibe a presença dum corpo, que tanto pode
representar um triunfo báquico, como a falta de vinho, tanto a fome,
como a sátira à carestia e à ganância, tanto a abstinência quaresmal,
como o castigo dos excessos perdulários da carne, tanto a caridade,
como a necessidade de contenção econômica, e ainda a terra exangue,
a seca, a velhice, a morte, a doença, o ano velho, a cidade de
Lisboa, ou um sacrifício fúnebre ritual, carnavalizado. Além disso é
eminentemente adaptável às festas e funções coletivas, quer
cíclicas, quer críticas. Nelas, a natureza primária, a organização
social e as práticas culturais e simbólicas intervêm conjugadamente,
mostrando o ser humano em toda a plenitude da sua crise e da sua
necessidade. Tal como Maria Parda __ a minhoca que puseram.
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