CONTO DAS OBRAS:
Felicidade Clandestina e a Legião estrangeira.
O conto começa com a protagonista lembrando-se de Ofélia e seus pais
que conhecera, mas há muito tempo não via mais. “Estou tentando
falar daquela família que sumiu há anos sem deixar traços em mim”.
A protagonista, preocupada com a família que foi embora sem dizer
para onde, surpreendeu-se com o aparecimento de um pinto na sua
casa, doado por alguém, não disse quem, bem na véspera do natal.
Conta a protagonista, da admiração de todos na casa, seu marido e
seus filhos, todos ficaram surpresos, tentando adivinhar o que o
pinto estava fazendo ali nessa ocasião. “Mas o natal é amanhã, disse
acanhado o menino mais velho. Sorrimos desamparados curiosos”.
A protagonista narradora define o fato do pinto como um sentimento
que vai se modificando como a água que vai se transformando a cada
ocasião que se lhe apresenta: “mas sentimentos são de um instante.
Em breve como a mesma água já é outra quando o sol a deixa mais
leve, e já é outra quando se enerva e tenta morder uma pedra, é
outra ainda no pé que mergulha – em breve já não tínhamos no rosto
apenas aura e iluminação. Em torno do pinto estávamos bons e
ansiosos”.
Ela, a protagonista narradora, fala da bondade e o efeito que ela
provoca em cada pessoa de sua família e nela. No marido rapidez e
severidade, nos meninos, um ardor, e nela protagonista, intimida.
Como a água os sentimentos iam se transformando. “Daí a pouco
olhamos enredados pela falta de habilidades de sermos bons, e o
sentimento já era outro, da falta de bondade para tínhamos no rosto
a responsabilidade de uma aspiração, o coração pesado de um amor que
já não era mais livre. Passado o momento do pinto, os adultos já o
tinham esquecido, mas os meninos não, ficara uma indignação.
Não só indignação, mas também acusação de que nada fazíamos pelo
Pinto e pela humanidade”. Constrangidos, pai e mãe ainda não haviam
dito para os filhos que as coisas são assim mesmo. Então a
protagonista confessa o quanto é difícil dizer para os filhos de que
as coisas eram assim mesmo as aceitávamos.
“E o pinto continuava ali sobre a mesa, piando cheio de medo. Não
tinha como acalmá-lo porque ele não conhecia sentimentos”. Nesse
momento em que o pinto estava ali sobre a mesa com medo, a
protagonista desejou que o pinto fosse igual os humanos e sentisse
como os humanos o sentimento do amor e soubesse que ali, ele, como
obra de Deus, estava sendo amado.
“E o menino menor não suportou mais, e perguntou: você quer ser a
mãe dele? Eu disse que sim” Os quatro meninos ficaram então
esperando que ela tomasse uma atitude em favor do pinto. Ela, a
protagonista narradora fala dos sentimentos e do amor que o pinto
estava provocando na família. Ela como mãe, como o nascimento é
próprio das mães. Tentou isolar-se do problema.
Diante de tamanha crise no amor a protagonista se presta a uma
reflexão e percebe que um dia, sem ela saber com certeza a amaram.
Então estendeu a mão e pegou o pinto.
Ao pegar o pinto lhe veio à lembrança novamente Ofélia. Agora ela
relembrava não só Ofélia. Mas também seus pais. Com carinho
relembrou do dia no banco da praça em que conversava com a mãe de
Ofélia, uma mulher trigueira que fazia os homens a olhar pela
segunda vez, do seu desejo de fazer um curso para fazer bolos.
Lembrou-se também do pai de Ofélia, homem bem apanhado com o firme
desejo de se dar bem com seu ramo de negócio, gerente de hotel ou
até mesmo como dono de um.
Mas quem eram as personagens que compunham aquela família
misteriosa?
A protagonista conta que o contato com a família se fez através de
Ofélia. Ofélia, menina inteligente, como descreve a narradora,
sentava-se com jeito, tinha opinião formada sobre tudo.
Dava conselhos para a educação dos filhos, dava instruções e
advertências. Banana não se mistura com leite. Mata. Para tudo tinha
uma resposta. A última palavra sempre era dela. Tinha o hábito de
dar opinião sobre tudo, criticar procedimentos e analisar.
Uma vez chegou a chamar a protagonista de esquisita. Esquisita
porque comprava verduras demais para a semana e acabava estragando
na geladeira, outra vez porque e comprou de menos e não chegava até
o fim da semana. Tudo isso irritava a protagonista que sempre
tentava induzida ao erro, sempre em vão, salvo um dia quando lhe foi
perguntado o que era geografia e ela respondeu: “Geografia é um modo
de estudar”. O erro lhe valeu conselhos como: vai errando devagar. É
errado que se aprende.
Ofélia era uma menina inteligente, mas a protagonista desejava
livrar-se dela: existe uma menina mais antipática? Um dia parecia
que este dia se aproximava e rapidamente.
Bateram a porta da casa para a surpresa da protagonista narradora,
lá estava a mãe de Ofélia.
Por acaso Ofélia Maria esta aí?
Recebendo resposta afirmativa, a mãe de Ofélia parecia estar
ofendida e reprovando as visitas de Ofélia na casa da vizinha. Esta
atitude da mãe deixou preocupada a protagonista, pois nunca havia
feito nada que desagradasse a menina. Enquanto elas iam embora ela
percebeu o quanto a mãe protegia a filha. Finalmente, pensou ela,
Ofélia não vira mais aqui. A mãe dela deve me odiar, pensa que eu
quero roubar a sua filha.
Não foi o que aconteceu, Ofélia continuou a visitar a casa da amiga.
Voltava sempre para reparar nos erros da amiga dar-lhe conselhos.
O que Ofélia realmente queria? Nem mesmo a protagonista tinha a
resposta.
Mais tarde Ofélia apareceu para a visita costumeira. Assuntou-se com
a presença do Pinto e fez perguntas, todas respondidas.
A partir daí o pinto gerou uma situação de consciência na
protagonista. A menina inteligente virou criança. A protagonista que
antes via a menina como chata, agora a passa ver como uma criança
que quer resposta da vida. A menina se sentiu impelida a roubar o
pinto, que segundo sua dona, esta atitude mostrou que a menina tinha
inveja porque ela não tinha aquele pinto.
“Depois que o tremor da cobiça passou, o escuro dos olhos tremeu
todo: não era a um rosto sem cobertura que eu a expunha agora eu a
expusera ao melhor do mundo: a um pinto.
Sem me verem, seus olhos quentes me fitavam numa abstração intensa
que se punha em íntimo contato com minhas intimidades”.
A menina ali, diante da protagonista, estava cheia de dúvidas, de
espanto, com a pergunta estampada no rosto e nos olhos cuja resposta
a protagonista não dava por conta da moralidade.
A protagonista foi percebendo a angústia da menina. Como também a
sua angústia de ver aquela menina ali diante dela se transformando
numa criança e desejando ser dela ou se ala mesma. Ofélia voltou à
pergunta: “É um pinto?
Ele está na cozinha.
Você pode ir à cozinha brincar com o pintinho”.
Aqui a protagonista deixa para a menina a escolha de ir ou não ir:
“sei que não deveria ter dado a escolha.
Só vão ver o pintinho se você quiser”.
A partir daí para diante a protagonista faz uma análise psicológica
do aceitar e do odiar.
Era preciso que a menina a odiasse para que ela, a protagonista
pudesse resistir a seu ódio, ao seu sofrimento.
Reclama a protagonista: ao me usar me machucava com força; ela me
arranhava ao tentar agarrar-se a minhas paredes lisas. Afinal sua
voz soou em baixa e lenta raiva: - Vou ver o pinto na cozinha.
Com a dignidade e a elegância de sempre foi até a cozinha, mas
voltou logo.
“Mas é um pintinho, disse. Ri, Ofélia olhou-me ultrajada. De repente
riu, rimos juntas. Ofélia pôs o pintinho no chão e começou a brincar
com ele, se corria atrás dele”.
Passada a êxtase pelo pinto, finalmente Ofélia resolveu ir embora.
Depois de ir à cozinha levar o pinto despediu-se da amiga e saiu. A
narradora protagonista conta assim o final da história de Ofélia:
"Relutante foi afastando devagar a cadeira do caminho. Até parar
devagar à porta da cozinha. No chão estava o pinto morto. Ofélia,
inutilmente tentei eu atingir o coração da menina calada. OH! Não se
assuste muito, às vezes a gente mata por amor, mas juro que um dia a
gente esquece, juro. Eu estava agora cansada, sentei-me no banco da
cozinha.
Sentada como se todos esses anos eu tivesse com paciência esperado
na cozinha, Como na páscoa nos é prometido, em dezembro ele volta.
Ofélia é que não voltou: Cresceu. Foi ser a princesa hindu por quem
no deserto sua tribo espera".
ÚLTIMA ENTREVISTA COM CLARICE - PARTE 1
ÚLTIMA ENTREVISTA COM CLARICE - PARTE 2
PERDOANDO DEUS - CLARICE LISPECTOR
O OVO E A GALINHA
Felicidade Clandestina
Clarice Lispector
Clarice Lispector,
nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Tchetchelnik, 10 de
dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi
uma escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia e
naturalizada brasileira.
Clarice tivera um vida
tribulada. Seu casamento com um diplomata lhe trouxe algumas
vantagens, mas com um preço. o do quase isolamento. Era fumante
e esse vício quase lhe tira a vida, quando dormira com o cigarro
incendiando sua cama, o que lhe provocará uma cicatriz na mão.
Prof.
Heraldo Meirelles é Coordenador de ONG, web e mover design, Ativista
Social, humanitário
Negligenciar a educação de uma criança é negar a ela um
futuro e promover à sociedade um grande problema. (Heraldo Meirelles)