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Poemas de Fernando pessoa – Heterônimo – Alberto
Caeiro
O
GUARDADOR DE REBANHOS
(IX)
Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma
flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso
quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
II
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu que nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
Num meio-dia
de fim
de primavera
Tive um sonho
como
uma fotografia.
Vi Jesus Cristo
descer à terra.
Veio pela
encosta
de um monte
Tornado
outra vez menino,
A correr e
a rolar-se pela erva
E a arrancar flores
para as deitar fora
E a rir de
modo
a ouvir-se
de longe.
Tinha fugido
do céu.
Era nosso
demais para fingir
De
segunda pessoa da Trindade.
No céu era
tudo falso,
tudo em
desacordo
Com flores
e árvores e pedras.
No céu
tinha que estar sempre sério
E de vez
em quando
de se tornar
outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa
toda à roda
de espinhos
E os pés
espetados por
um prego com
cabeça,
E até com
um trapo à roda
da cintura
Como
os pretos
nas ilustrações.
Nem sequer o
deixavam ter pai e mãe
Como
as outras crianças.
O
seu pai era duas pessoas...
Um velho
chamado José,
que era carpinteiro,
E que não
era pai dele;
E o
outro
pai era uma pomba
estúpida,
A única pomba
feia do mundo
Porque não
era do mundo
nem era pomba.
E a sua mãe não
tinha amado antes
de
o ter.
Não era
mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo
do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com
respeito,
Pregasse a bondade
e a justiça!
Um dia que Deus
estava a dormir
E o
Espírito Santo
andava a voar,
Ele foi à
caixa dos milagres e roubou
três.
Com
o primeiro
fez que ninguém soubesse
que ele tinha fugido.
Com
o segundo
criou-se eternamente
humano e menino.
Com
o terceiro
criou um Cristo
eternamente na cruz
E deixou-o
pregado na cruz que há no
céu
E serve de
modelo
às outras.
Depois
fugiu para o sol
E desceu
pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje vive
na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita
de riso
e natural.
Limpa o
nariz ao braço
direito,
Chapinha nas poças
de água,
Colhe as
flores e gosta
delas e esquece-as.
Atira pedras aos
burros,
Rouba a
fruta dos pomares
E foge a
chorar e a gritar dos
cães.
E, porque
sabe que elas não gostam
E que toda
a gente acha graça,
Corre
atrás das raparigas
Que vão em
ranchos pelas estradas
Com as
bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me
tudo.
Ensinou-me
a olhar para as cousas.
Aponta-me
todas as cousas
que há nas flores.
Mostra-me
como
as pedras são engraçadas
Quando a
gente as tem na mão
E olha
devagar para elas.
Diz-me muito
mal de
Deus.
Diz que ele é um velho
estúpido e doente,
Sempre a escarrar no
chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes
da eternidade a fazer
meia.
E o
Espírito Santo
coça-se com
o bico
E empoleira-se
nas cadeiras e suja-as.
Tudo no
céu é estúpido como
a Igreja Católica.
Diz-me que Deus
não percebe nada
Das coisas
que criou –
«Se é que ele as criou,
do que duvido»
–
«Ele diz, por
exemplo, que
os seres cantam a sua
glória
Mas os
seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os
seres existem e mais nada,
E por isso
se chamam seres.»
E depois,
cansado
de dizer mal
de
Deus,
O
Menino Jesus adormece
nos meus braços
E eu levo-o
ao colo
para casa.
Ele mora comigo
na minha casa a meio do
outeiro.
Ele é a Eterna Criança,
o
deus que faltava.
Ele é o
humano que é natural,
Ele é o
divino que sorri
e que brinca.
E por isso
é que eu sei com toda
a certeza
Que ele é o
Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão
humana que é divina
É esta minha quotidiana
vida de poeta,
E é porque
ele anda sempre comigo
que eu sou poeta
sempre,
E que o
meu mínimo
olhar
Me enche de
sensação,
E o mais
pequeno som,
seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova
que habita onde
vivo
Dá-me uma mão
a mim
E a outra
a tudo que existe
E assim vamos
os três pelo
caminho que houver,
Saltando e
cantando e rindo
E gozando
o nosso
segredo comum
Que é o
de saber por
toda a parte
Que não há
mistério no
mundo
E que tudo
vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me
sempre.
A direcção
do meu
olhar é
o seu
dedo
apontando.
O
meu ouvido
atento alegremente a todos
os sons
São as
cócegas que ele me faz, brincando,
nas orelhas.
Damo-nos
tão bem um com
o
outro
Na companhia
de tudo
Que nunca pensamos
um no
outro,
Mas vivemos
juntos e dois
Com um acordo
íntimo
Como
a mão direita e a
esquerda.
Ao anoitecer
brincamos as cinco
pedrinhas
No
degrau da porta
de casa,
Graves como
convém a um
deus e a um poeta,
E como
se cada pedra
Fosse todo
um universo
E fosse por
isso um grande
perigo para ela
Deixá-la
cair no chão.
Depois
eu conto-lhe
histórias das cousas só dos
homens
E ele sorri,
porque tudo
é incrível.
Ri dos
reis e dos que não
são reis,
E tem pena de
ouvir falar das guerras,
E dos comércios,
e dos navios
Que ficam fumo
no ar dos
altos-mares.
Porque ele
sabe que tudo isso
falta àquela verdade
Que uma flor
tem ao florescer
E que anda com
a luz do sol
A variar os
montes e
os vales
E a fazer doer
aos
olhos
os muros
caiados.
Depois
ele adormece e eu
deito-o.
Levo-o
ao colo
para dentro
de casa
E deito-o,
despindo-o
lentamente
E como
seguindo um ritual muito
limpo
E todo
materno até ele estar nu.
Ele dorme
dentro
da minha alma
E às vezes acorda
de noite
E brinca com
os meus sonhos.
Vira uns de
pernas para o ar,
Põe uns em cima dos
outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo
para o meu sono.
Quando eu
morrer, filhinho,
Seja eu a criança,
o mais pequeno.
Pega-me tu ao
colo
E leva-me para dentro
da tua casa.
Despe
o meu ser cansado
e humano
E deita-me
na tua cama.
E conta-me
histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar
a adormecer.
E dá-me sonhos
teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do
meu Menino Jesus.
Por que
razão que se perceba
Não há-de
ser ela mais verdadeira
Que tudo
quanto
os filósofos
pensam
E tudo
quanto as religiões
ensinam? |