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D. PAULA, DE MACHADO DE
ASSIS.
O conto D. Paula, de Machado de Assis, escrito em
1884, foi publicado na obra
Várias Histórias e percebe-se neste relato um tema que
já fora desenvolvido em O Enfermeiro e outros contos: a
desconexão entre o externo e o interno, pois se dizia e pregava o
moralismo, no seu íntimo desejava, ou pelo menos deliciava-se com
algo imoral.
Em D. Paula, Machado descreve o ambiente propício às
abordagens amorosas “...o corredor, os pares que saíam, as
luzes, a multidão, o rumor das vozes...”
Na obra em análise, o narrador faz uma focalização externa de
Venancinha, com a intenção de mostrar ao leitor que algo estava
acontecendo: “a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar”,
mas não revela o porquê de tantas lágrimas da moça, fazendo assim
uma paralipse que representa um recurso retórico em que a narrativa
não salta, como na elipse, por cima de um momento, passa ao lado de
um lado.
Dessa forma a paralipse causa um breve enigma, pois não revela o
motivo de tantas lágrimas derramadas pela sobrinha quando D. Paula a
encontra. Nesse instante o enunciador volta-se para o leitor
instigando-o a desvendar o que realmente teria acontecido, “quando
Venancinha atirou-lhe aos braços, as lágrimas vieram-lhe de novo”.
Mas em seguida, o leitor recebe a informação de que quando a senhora
envolveu a moça em um jogo de gestos carinhosos e de palavras doces
e confortáveis, Venancinha confiou à tia tudo o que havia
acontecido. Trata-se de uma briga que a moça teve com o marido
porque este achava que ela cometera adultério.
Esta crença do marido é revelada sumariamente:
Desde muito que o marido embirrava com um sujeito; mas na
véspera à noite, em casa do C..., vendo-a dançar com ele duas vezes
e conversar alguns minutos, concluiu que eram namorados.
O sumário aumenta a velocidade discursiva, distanciando o leitor dos
fatos, pois não se sabe até então se era “birra” do marido ou algo
semelhante.
D. Paula, agora envolvida na situação em que o casal encontrava-se,
decide ajudá-los. A princípio ela vai ao escritório de Conrado para
conversar e ver se há possibilidades, entre o casal, de reconstituir
a paz conjugal. Quando a senhora está de partida, a sobrinha
acrescenta-lhe que: “apesar de tudo” adorava-o, gerando aí
uma ambiguidade, permitindo ao leitor pensar que ela realmente traiu
o marido ou estava dissimulando para se mostrar arrependida de tal
situação, diante da tia. Neste momento, o narrador instiga o
enunciatário a refletir se realmente houve ou não adultério, criando
assim uma postura depreciativa sobre a moça em relação ao seu
caráter. Esta passagem pode ser identificada quando a jovem jura que
“apesar de tudo, adorava o Conrado”.
Na verdade o que se nota é que o discurso toma um rumo, quando na
verdade seu foco é outro. Ou seja, o sujeito da enunciação também é
um dissimulador, pois focaliza o adultério de Venancinha sendo que a
trama está em volta da figura de D. Paula. Porém, isso está latente
na narrativa.
D. Paula segue o seu destino a caminho do escritório do rapaz, para
que possa tentar promover a paz entre a moça e Conrado, “não
digo desconfiada, mas curiosa”, esta focalização interna não é
tão reveladora assim, pois a tia, a partir de então, passa a possuir
dúvidas a respeito da traição da sobrinha e fica instigada em saber
se houve, ou não o adultério.
Quando a senhora chegou ao escritório não precisou explicar o motivo
de sua visita, porque o sobrinho adivinhara tudo e em seguida “confessou
que fora excessivo em algumas cousas”. Por intermédio do
narrador o leitor descobre que Conrado tinha certeza de que sua
mulher o traía devido a pessoa de quem se tratava. Sendo assim,
pode-se observar que o moço tinha certo conhecimento do caso, para
afirmar com tanta firmeza sobre a situação. Ou ainda, pode ser que
ele conhecesse o caráter do sujeito; levando em consideração também
a leviandade de sua esposa, e chegou a esta conclusão de que eram
namorados.
Após uns minutos de conversa, a senhora propõe ao moço que a jovem
passasse alguns dias com ela, em sua casa, para a recuperação de
caráter. E ainda deu-lhe conselhos de brandura e prudência e também
alertou-o de que esse homem não merecia todo esse cuidado que
estavam tomando.
Percebe-se então que nesta circunstância a senhora não tinha o
conhecimento de quem se tratava, pois até neste ponto o enunciador
não estava completamente voltado para D. Paula, e sim para
Venancinha. Ou seja, o narrador prende a atenção do enunciatário que
está concentrado na situação em que a moça se encontra, mas isso é
até o momento em que a tia descobre de quem se tratava, pois, a
partir daí o sujeito da enunciação volta-se para a senhora.
Na continuidade da narrativa o narrador conta que na hora da
despedida, de D. Paula com Conrado, o nome do rapaz envolvido na
separação temporária entre o casal, é pronunciado e de imediato “D.
Paula empalideceu”. Diante desta reação mostrada através de uma
focalização externa o leitor prossegue com um mistério em mãos.
Afinal por que D. Paula ficou pálida? Que valor tem o nome do rapaz
na vida dela? Neste momento do enunciado começa o enigma em torno da
personagem.
Para reafirmar o grande significado que este nome representa para a
senhora, o sujeito da enunciação associa o modo pelo qual ela
retira-se do local, usando uma focalização externa: “com a mão
trêmula e um pouco de alvoroço na fisionomia”. Em relação a
este tipo focalização, pode-se dizer que ela é geradora de
significados para o leitor, pois a personagem age na frente do
enunciatário sem que ele tenha o conhecimento dos seus sentimentos
ou pensamentos.
Na sequência do conto o narrador utiliza outra paralipse, mas desta
vez omitindo os sentimentos da tia quanto ao Vasco Maria Portela,
sendo este o nome revelado na despedida. Com isso gera outro enigma
na diegese, só que agora em relação à senhora.
Então D. Paula após o choque que tomara, foi encontrar-se com a
sobrinha para notificar-lhe a sentença final, a moça por sua vez
aceitara tudo. Após este fato o narrador utiliza a elipse para
omitir o que acontece nos dois dias que antecede a ida de Venancinha
para a casa da tia. Finalmente a jovem segue para a casa da senhora,
que com ajuda desta, tem a intenção de modificar-se e reconciliar-se
com o marido.
Quando a tia e a sobrinha estão a caminho da casa, o enunciador usa
outra estratégia para que o leitor possa imaginar o que teria
acontecido nos dias anteriores.
Através do discurso modalizante da ordem do crer na expressão “pode
ser também que algumas saudades”, o narrador sabe o que
realmente se passa na cabeça da moça, mas não afirma e ainda não
identifica de quem são estas possíveis saudades sentidas, se pelo
marido ou pelo amante.
Na proporção em que o nome do Vasco foi revelado, D. Paula não teve
sossego em seus pensamentos, pois a partir daí começou a escutar
espécies de ecos, que a conduziam a seu passado, às suas aventuras
do tempo de moça. Entende-se nesse momento, que a senhora também foi
leviana, assim como a sobrinha é no presente; e que agora a tia é: “uma
pessoa austera e pia, cheia de prestígio e consideração”. Com
isso D. Paula deparava-se com as lembranças do passado
identificando-se com Venancinha na situação em que está vivendo.
Na seqüência dos fatos o narrador revela ao leitor o que de fato
aconteceu com D. Paula e Vasco Maria Portela, que consiste em uma
aventura com sucessões de horas doces e amargas, de delícias, de
lágrimas, de cóleras, de arroubos, e que foram momentos vividos
intensamente. Com a intenção de anunciar que foi apenas uma
aventura, o sujeito da enunciação nos fornece, em seguida, a
informação do fim do relacionamento entre a tia e Vasco, e revela
também que a senhora mantinha este caso “à sombra do casamento,
durante alguns anos”. Aqui no tempo da enunciação o narrador
sugere que no passado, no tempo da diegese, a personagem, D. Paula,
não era uma figura prestigiada devido à postura que apresentava, mas
que no tempo presente constitui-se de um caráter sério, digno de
considerações.
Desta forma o enunciador caracteriza duas personalidades distintas
referentes à senhora, sendo uma de quando era jovem e apresentava
atos de leviandade; e a outra, a de agora que adquiriu experiências
da vida e compõe-se de uma postura séria. Considerando este aspecto
podemos chegar a conclusão de que a tia na sua juventude, mantinha
uma postura não recomendável em que descaracterizava os “bons
costumes” da época e consequentemente, colocava em risco sua
reputação. Por outro lado nota-se o oposto, porque D. Paula atribuiu
outro caráter, em relação ao que tinha, fazendo assim com que o
leitor tenha uma visão apreciativa sobre ela, no presente, com isso
o enunciatário passa a depositar mais confiança na senhora em
relação a recuperação de caráter de Venancinha.
Na proporção em que a sobrinha relatava os fatos para a tia, esta
voltava, em seus pensamentos, para o tempo passado relembrando, ou
até mesmo revivendo, as suas aventuras. Diante deste processo
pode-se afirmar que a moça é quem levou a senhora a recuar-se para
as emoções ocorridas.
Durante uma conversa com a sobrinha, a tia percebe a dissimulação da
jovem quando lhe responde uma pergunta que diz respeito às saudades
da Tijuca, e a moça para dar mais intensidade à resposta faz gestos
que D. Paula acompanhou, observando cada detalhe com seus olhos
sagazes. Os mesmos que se mostram na conversa com Conrado,
reafirmando, portanto, que ela está sempre atenta ao que acontece ao
seu redor.
Diante da dissimulação de Venancinha, a senhora chega a concluir
que: ”eles amam-se”. Esta descoberta fez com que avivasse
ainda mais suas lembranças. Apesar de lutar contra esses
pensamentos, nada adiantou, pois o passado voltara de manso ou de
assalto. Desta maneira o narrador faz uma analepse sumarizada,
registrando alguns momentos vividos pela tia:
D. Paula tornou aos seus bailes de outro tempo, às suas eternas
valsas que faziam pasmar a toda a gente, às mazurcas, que ela metia
à cara da sobrinha como sendo a mais graciosa cousa do mundo, e aos
teatros, e às cartas, e vagamente, aos beijos.
Desde que a tia retornou ao tempo passado não pôde mais
concentrar-se totalmente em sua missão para atingir seu objetivo,
isso porque ficava dividida entre o presente e o passado. Contudo:
D. Paula mostrava à sobrinha a superioridade do marido, as suas
virtudes e assim também as paixões, que podiam dar um mau desfecho
ao casamento, pior que trágico, o repúdio.
Na continuidade do discurso o narrador utiliza uma elipse que é
caracterizada como “um segmento nulo de narrativa que corresponde a
uma qualquer duração da história.”. “Nove dias depois”, Conrado fez
a sua primeira visita à sua esposa e à tia. Durante essa visita ele
manteve a mesma conduta de quando chegou até a sua saída;
caracterizando-se em uma postura fria. Esse procedimento do marido
resume-se em uma dissimulação para atingir os sentimentos de
Venancinha, e assim aconteceu pois ela ficou sem reação ao vê-lo
daquele jeito, que até temeu a perda do marido e a partir daí tornou
o seu principal motivo de sua transformação, ou seja, quando viu o
marido naquele estado, decidiu lutar pelo seu casamento.
Após dois dias do ocorrido, a jovem e a senhora vão para um passeio,
como de costume, e viram em suas direções, um cavaleiro, em que
Venancinha após fixar seus olhos nele, escondeu-se atrás de um muro
enquanto D. Paula manteve-se em seu lugar observando-o. Com a reação
da mocinha a tia pôde perceber de quem se tratava e que este
relacionamento chegou a um grau perigoso, porque a reputação de sua
sobrinha estava em risco.
Na mesma noite em que a jovem avistou o rapaz, a senhora com toda a
sua experiência manipulou a sobrinha para lhe contar tudo o que
aconteceu. O sujeito da enunciação faz neste instante um sumário
caracterizando a história da moça, acelerando o tempo do discurso.
O sumário em questão mostra ao leitor o quanto a jovem se encantou
com o sujeito, a ponto de comentar dele para o marido que ao escutar
“franziu o sobrolho” e que “foi este gesto que lhe deu
uma idéia que até então não tinha”. Ou seja, a mulher falou com
tanta graça sobre o rapaz, que despertou em Conrado uma certa
desconfiança que antes não tinha.
Ainda na residência da tia, Venancinha continuava a revelar à D.
Paula os fatos e a senhora escutava-os prestando atenção em cada
detalhe pronunciado, fazendo assim com que voltasse a seu espírito
jovem, criando, no entanto, mais confiança à moça. Nestas
circunstâncias a sobrinha “achou ali uma confidente e amiga”.
Na verdade o não julgamento pela tia era mais um ato egoísta do que
humano, pois ela encontrou naquele momento em seu passado, mesmo que
por alguns instantes. Para melhor exemplificar esta passagem o
narrador compara a senhora “a um general inválido, que forceja
por achar um pouco do antigo ardor na audiência de outras campanhas”.
É como se a senhora tentasse perdoar ela mesma.
Ao longo da confissão Venancinha contou à tia que gostou do rapaz,
mas agora estava arrependida e assim foi contando-lhe mais coisas. À
medida em que a sobrinha revelava os acontecimentos, D. Paula
deliciava-se com as confissões retornando ao seu passado, e no final
do discurso da jovem a senhora conclui que esta situação não passava
de um prólogo (começo), interessante e violento. Enfim, a tia
consegue colocar na cabeça da sobrinha a idéia do erro que quase
cometera. Mas para a senhora esta história ainda se passava em sua
mente fazendo-a viajar no tempo, isso pode ser notado quando ela “gastou
vinte minutos, ou pouco menos, em beber uma xícara de chá e roer um
biscoito”.
Em seguida o narrador faz uma alegoria que refere-se exatamente ao
que se passou com D. Paula: “esta é a particularidade das
folhas, as gerações que passam contam às que chegam as cousas que
viram”, que neste caso a senhora viveu a mesma situação em que
a sobrinha vive atualmente. Porém D. Paula prefere dissimular ao
invés de revelar à sobrinha que passou por experiência similar.
Voltando ao início do conto nota-se uma frase interessante: “Não
era possível chegar mais a ponto”, que se repete no decorrer da
história. No entanto com esta expressão pode-se observar que
Venancinha e D. Paula encontram-se em um ponto em comum. Ou seja,
ambas as personagens têm uma história semelhante, a diferença é
apenas temporal, uma aconteceu no passado e a outra ocorre no
presente.
Partindo da análise do conto referido, verifica-se que o adultério
cometido pela personagem que protagoniza o conto foi mais extenso do
que da moça, pois este foi apenas um começo e com a ajuda da senhora
não foi prolongado.
Contudo, nota-se que apesar de D. Paula ter solucionado o caso de
Venancinha, fica para ela a incômoda, inquietante e impossível de
ser “resolvida” lembrança do passado.
Tendo em vista nosso interesse em compreender a construção ambígua
da personagem D. Paula, percebemos no conto analisado que a
perspectiva que prevalece para gerar efeito ambivalente ao
comportamento da personagem, que nomeia o conto, é a focalização
externa, permitindo assim a visualização do aspecto físico em que se
encontra a personagem analisada, o que consequentemente, contribuiu
para o estudo do seu comportamento.
Neste texto também foram usados os recursos anisocrônicos, como os
sumários e as elipses, com a finalidade de economizar tempo e
espaço, simplificando os fatos da diegese. A presença das anacronias
e modalidades básicas acrescentam-se também no decorrer do conto em
quantidade mínima.
Em relação aos estudos realizados em D. Paula, podemos
encontrar uma chave de interpretação para o clássico
Dom Casmurro e uma preocupação central da obra de Machado de
Assis. Ora, se inicialmente (como em Dom Casmurro) pensamos
ser a questão central do conto um dado de enredo (o adultério), logo
percebemos o interesse real do escritor que se caracteriza-se em
deslocar a atenção do leitor para o efeito que este dado provoca na
vida interior da personagem. Ou seja, Machado de Assis direciona o
conto, e paralelamente ao que acontece, há sempre o que parece estar
acontecendo.
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Joaquim José Maria Machado de Assis (1839-1908) é
unanimemente celebrado como um dos maiores escritores
brasileiros. Nenhum outro reuniu um interesse tão generalizado
em torno de sua vida e obra. Este prestígio, que outros
escritores mais populares não conseguiram alcançar, o situa à
parte, representando por si só um momento incomparável na
sucessão das escolas literárias. Destoante pelo pensamento e
pelo estilo da tradição literária, Machado de Assis marca seu
próprio estilo, fazendo crer ao seu leitor que se colocava face
aos acontecimentos históricos que presenciou como simples
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Prof.
Heraldo Meirelles é Coordenador de ONG, web e mover design, Ativista
Social, humanitário
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